quinta-feira, 6 de março de 2008

Um pouco de cultura...

     Com essas minhas viagens nos últimos anos aprendi uma coisa muito importante: é muito mais legal viajar conhecendo antes um pouco da história do país. Assim, ao chegar no país, podemos entender melhor as pessoas, a cultura local, a arquitetura, os principais monumentos e, o principal: saber a história nos faz sentir um pouco "parte do lugar", e não simplesmente um turista olhando tudo na terceira pessoa.

     Mas, claro, a viagem em si é também uma fonte inesgotável de cultura, e sempre que paro para refletir o quanto aprendi durante a viagem, fico surpreso.

     Nessa última viagem para a França, pude aprender muitas coisas, e vou aproveitar esse post para contar uma história que eu achei bem legal (e trágica, ao mesmo tempo). Vou falar um pouco sobre a história da guilhotina.

     Apesar de ter certeza de que todos sabem do que se trata, vai uma breve explicação. A guilhotina é um instrumento utilizado para executar ou decapitar pessoas. Consiste em estrutura de madeira na qual uma grande lâmina é suspensa, a qual, sobre um determinado comando, é solta à queda-livre sobre o pescoço da vítima, que tem a cabeça decapitada.

     Inventada na França, no final do século XVI (1788), pelo Dr. Joseph-Ignace Guillotin, a guilhotina teve um importante papel na Revolução Francesa, e teve como vítimas alguns personagens importantes como o rei Luis XVI e sua amável esposa Maria Antonieta. A primeira cabeça a rolar foi a de Nicolas-Jacques Pelletier, que foi executado em 25 de Abril de 1792, e os últimos - acreditem se quiser -, foram Claude Buffet e Roger Bontemps, que tiveram sua sentença executada em Novembro de 1972. Isso mesmo, mil NOVECENTOS e setenta e dois.

     O fato de as últimas vítimas terem sido executadas muito recentemente foi a primeira coisa que me assustou. Me faz ver que a história que estudamos ou lemos não é simplesmente ficção, ou coisa de outro mundo. É algo que aconteceu há pouco tempo atrás, nesse mesmo mundo, nesse mesmo lugar, com pessoas iguais a eu e você. Não estamos tão distantes assim dela! E, o principal, estamos construindo-a todos os dias, sem perceber. Sem dúvida nos livros de história de daqui algumas centenas de anos estarão lá pessoas que viveram nos dias de hoje e, até mesmo, quem sabe, eu e você!

     A segunda coisa que eu achei super interessante (e um tanto quanto bizarra e trágica) foi a tradição de executar as pessoas em praça pública, de modo que todos pudessem assistir. Executar pessoas começou a se tornar um costume, e sempre que havia uma decapitação pública, as praças se enchiam. Afinal de contas, qual o motivo de se executar as pessoas em praça pública? Simples, serve para que o exemplo da vítima não seja seguido pelos expectadores no futuro.

     Mas isso não seria suficiente. Se, embora a guilhotina tivesse sido criada justamente para provocar uma morte rápida e sem dor ao sentenciado, os carrascos não se contentavam com uma morte instantânea.  Um desses carrascos, Dr. Beaurieux, se aventurou em alguns testes bizarros com as vítimas., nos quais ele, após fatiar a cabeça do sujeito, chamava-o pelo nome, ou dava uma espetada com um alfinete em seu rosto. Para a sua surpresa, sempre havia uma reação.

     Henri Languille, executado em 28 de Junho de 1905 pelo Dr. Beaurieux foi uma das vítimas desses testes. Logo após a queda da cabeça, o médico (se é que assim pode ser chamado) segurou sua cabeça pelos cabelos e, mostrando a todo o público, gritou o nome "Languilleeeee!!!". Lentamente, percebeu que os olhos da vítima se mexeram e viraram em sua direção, como que respondendo ao chamado. Após alguns segundos, repetiu o teste, gritando pelo nome da vítima. Mais uma vez os olhos se direcionaram a ele. O acontecimento revelara então uma grande novidade para a ciência, o fato de que cabeças vivem separadas do corpo por alguns segundos antes de se apagarem de vez.

     Se a história ainda não está muito estranha para você, aguarde que agora vem o pior. Sabendo desse pequeno intervalo de tempo que o cérebro sobrevive após a decapitação, dali em diante todos os carrascos começaram a segurar a cabeça da vítima pelos cabelos após o ato, de modo que ela pudesse ter a agradável sensação de ver uma multidão aplaudindo a sua morte como última imagem.

     Simples assim. "Que morram todos eles, mas sabendo que há uma multidão de pessoas comemorando tal fato".

     Para quem quiser dar uma lida no trecho escrito pelo Dr. Beaurieux sobre a morte de Languille, segue abaixo a transcrição do mesmo:

Here, then, is what I was able to note immediately after the decapitation: the eyelids and lips of the guillotined man worked in irregularly rhythmic contractions for about five or six seconds. This phenomenon has been remarked by all those finding themselves in the same conditions as myself for observing what happens after the severing of the neck...

I waited for several seconds. The spasmodic movements ceased. [...] It was then that I called in a strong, sharp voice: 'Languille!' I saw the eyelids slowly lift up, without any spasmodic contractions – I insist advisedly on this peculiarity – but with an even movement, quite distinct and normal, such as happens in everyday life, with people awakened or torn from their thoughts.

Next Languille's eyes very definitely fixed themselves on mine and the pupils focused themselves. I was not, then, dealing with the sort of vague dull look without any expression, that can be observed any day in dying people to whom one speaks: I was dealing with undeniably living eyes which were looking at me. After several seconds, the eyelids closed again[...].

It was at that point that I called out again and, once more, without any spasm, slowly, the eyelids lifted and undeniably living eyes fixed themselves on mine with perhaps even more penetration than the first time. Then there was a further closing of the eyelids, but now less complete. I attempted the effect of a third call; there was no further movement – and the eyes took on the glazed look which they have in the dead.