Estar no lugar certo na hora certa. Apesar de o clima não ter melhorado, e de inúmeros outros problemas terem acontecido nessa viagem, ainda assim considero que tive sorte de estar em Florença nesses dois últimos dias. O motivo é simples, vou explicar...
Florença começou um pouco mais tarde do que eu havia previsto, uma vez que abri mão de viajar de manhã para assistir ao Papa em Roma. Viajei então logo após a missa, no trem das 13h, e cheguei em Florença de tardinha. Direto ao albergue, tive a desagradável surpresa de ter a minha reserva arbitrariamente cancelada: o albergue havia feito overbooking para a Páscoa, e eu havia sido um dos escolhidos para perder o quarto.
Claro, não ficaria barato assim. Bati o pé que a obrigação de me conseguir hospedagem (sem pagar mais por isso, claro), era deles, mas infelizmente TODOS os albergues de Florença estavam lotados na ocasião. A solução que eu encontrei foi simples: não pagaria a minha reserva e dormiria no sofá do albergue. Dito e feito! Hospedagem gratuita, com direito a internet e café da manhã.
O problema foi que esse rolo todo acabou com minha tarde, e quando resolvemos o problema já estava anoitecendo. Ou seja, um dia a menos. Aproveitei a noite para comer pizza (sim, pela trocentésima vez), que por sinal foi a melhor pizza que eu já comi. Fantástica! E o melhor de tudo, apenas 7 euros, hehe.
Aproveitei então para dormir mais cedo, já que no dia seguinte seria obrigado a acordar logo que a recepção do albergue abrisse. Tirei proveito da situação e, logo que acordei, fui direto à Galeria Academia, um dos dois museus mais famosos de Florença (e de todo o mundo, quando se trata de arte renascentista). Enfrentei uma fila minúscula (para os padrões de Roma), e, depois de menos de meia hora já estava dentro!
Museu legalzinho. Teria adorado se arte renascentista fosse a minha área, mas não é. Então foi só legalzinho mesmo. Mas, a grande exceção foi a estátua de Davi, de Michelangello. Essa sim foi de tirar o fôlego! Simplesmente fenomenal, uma estátua de mais de 3 metros de altura, tão perfeita que parece real. A riqueza de detalhes é algo absurdo, é possível ver as veias na mão de Davi, a pontinha das unhas, cada músculo, tudo é inacreditavelmente perfeito.
Terminei a visita ao museu na hora do almoço, e após um Kebab, logo voltei ao albergue. Estava lá, usando a internet tranquilamente quando tive mais uma desagradável surpresa. O dono apareceu, perguntou quando era o meu check-out, e sabendo que eu não ficaria mais uma noite no albergue, resolveu me pedir para me retirar. Achei aquilo o maior absurdo do mundo, ainda mais depois do que aconteceu na noite anterior, mas depois de discutir e bater boca, xingar até não poder mais, resolvi que iria sair mesmo daquele lixo, ainda que ele tivesse mudado o discurso e autorizado que eu ficasse mais lá.
Saí na hora certa. Resolvi que ainda não era hora de desistir de Florença e, debaixo de chuva, parti em direção ao Il Duomo, uma das maiores catedrais do mundo. Fiquei surpreso quando entrei lá, o lugar era tão grande que faz a Catedral de Notre-Dame parecer uma capelinha (apesar de que a beleza do lugar não se compara com a catedral francesa). Achei engraçado, já que a Catedral de Notre-Dame era, até o momento, disparado a maior catedral que já tinha visto... Mas não tem limite mesmo para o que o dinheiro do dízimo pode fazer.
Uma construção de tamanha magnitude não podia deixar de ter uma cúpula, e essa tinha uma com nada menos que 82 metros de altura. Pagando-se 6 euros, pode-se subir os 414 degraus e ter uma visão da cidade toda, então, após relutar um pouco (a grana tá no finalzinho), resolvi que enfrentaria a última fila gigantesca da viagem e subiria até o topo. O motivo maior para eu mudar de idéia foi que a chuva havia dado uma trégua, e eu poderia esperar na fila sem me encharcar denovo.
E foi aí que o fato mais bizarro da viagem aconteceu...
Após pouco mais de uma hora na fila, comecei a subir os degraus. Após alguns minutos, uma primeira vista da cidade. Vista bonita, mas uma má notícia: a chuva havia voltado, e não estava fraca não.
Mais uns minutinhos subindo degrau a degrau, junto com uma multidão, e mais uma janelinha. Sim, a chuva havia piorado, e o céu estava cinza escuro. Estava realmente medonho, e nessa hora eu só pensava em como estariam os coitados que estavam ainda na fila.
O último lance de escadas estava chegando, e quando faltavam pouco mais que dez degraus, um segurança me solicitou que parasse, para que o pessoal que estava lá em cima descesse. Ele disse: dez sobem, dez descem. Estava então esperando os dez descerem, e eu seria então o primeiro a subir ao topo. Teria sido assim, se não tivesse acontecido algo totalmente inesperado.
De repente, do nada, ouvi uma explosão, algo que eu não consigo descrever de tão alto. Parecia uma bomba, e veio acompanhada de um clarão azul de cegar os olhos. A escada, que era onde eu estava piscou como um super-flash de máquina fotográfica, apesar de ser escura normalmente. E meu coração acelerou, minhas pernas tremeram.
Pânico.
Um tumulto começou. Gente gritando, um empurra-empurra para descer as escadas. O walkie-talkie do segurança começou a receber chamadas, perguntando o que diabos havia acontecido. O segurança, branco de medo, não sabia o que fazia, apenas gritava tentando conter o tumulto. Ninguém entendia nada, apenas morria de medo e gritava socorro.
As luzes se apagaram.
Logo desceu uma garota chorando horrores, dizendo que havia caído um relâmpago no centro da cúpula. Chorava e chorava, desesperada, e não sabia para onde fugia. O segurança perguntou se estavam todos bem, se alguém havia se ferido. Felizmente, parecia que todos estavam bem, apesar de completamente aflitos.
As dezenas de pessoas que estavam no topo não sabiam o que faziam. Se empurravam para conseguir descer, mas não podiam, já que as luzes haviam se apagado. E era impossível descer aquelas escadas sem luz, aquilo ficava um breu total. Demorou cerca de meia hora até as pessoas começarem a se acalmar, e, com o auxílio de alguns seguranças que chegavam ao topo naquele momento, todos começaram a descer com o auxílio de algumas lanternas.
Esperei a confusão toda passar e, sim, acreditem se quiser, eu subi lá em cima ainda. Subi sozinho, ninguém mais teve coragem, mas pude apreciar uma vista de toda Florença enquanto nevava, e foi realmente algo marcante. Confesso que meu coração estava a mil por hora, mas valeu a pena.
Parei então para refletir sobre o que tinha acontecido, mas não pude concluir se eu havia tido sorte de ter presenciado esse acontecimento maluco, de camarote, ou se havia tido azar, por não ter tido a oportunidade de ver um relâmpago cair a um metro de distância de mim. Sorte ou azar, só sei que foi algo memorável, e tenho certeza de que não vou esquecer as feições de pânico no rosto de tanta gente, ou aquele clarão azul sobre a minha cabeça.
Não vejo a hora de procurar na internet a notícia do acontecimento.
Um comentário:
Bizarro!
Quando eu estava em Florenca da ultima vez, tambem experimentei um relampago-trovao muito proximo. Estava dormindo no hotel e acordei com um barulho muito alto, como se fosse uma bomba tambem. Quando abri a janela, vi que havia uma tempestade, e que a bomba havia sido, na verdade, um raio.
E olha que pra me acordar é dificil! Uma vez explodiram uma bomba de verdade perto de mim quando eu estava dormindo em um ginasio de esportes, e eu nao acordei!
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