Mostrando postagens com marcador Itália. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Itália. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 25 de março de 2008

Florença

     Estar no lugar certo na hora certa. Apesar de o clima não ter melhorado, e de inúmeros outros problemas terem acontecido nessa viagem, ainda assim considero que tive sorte de estar em Florença nesses dois últimos dias. O motivo é simples, vou explicar...

     Florença começou um pouco mais tarde do que eu havia previsto, uma vez que abri mão de viajar de manhã para assistir ao Papa em Roma. Viajei então logo após a missa, no trem das 13h, e cheguei em Florença de tardinha. Direto ao albergue, tive a desagradável surpresa de ter a minha reserva arbitrariamente cancelada: o albergue havia feito overbooking para a Páscoa, e eu havia sido um dos escolhidos para perder o quarto.

     Claro, não ficaria barato assim. Bati o pé que a obrigação de me conseguir hospedagem (sem pagar mais por isso, claro), era deles, mas infelizmente TODOS os albergues de Florença estavam lotados na ocasião. A solução que eu encontrei foi simples: não pagaria a minha reserva e dormiria no sofá do albergue. Dito e feito! Hospedagem gratuita, com direito a internet e café da manhã.

     O problema foi que esse rolo todo acabou com minha tarde, e quando resolvemos o problema já estava anoitecendo. Ou seja, um dia a menos. Aproveitei a noite para comer pizza (sim, pela trocentésima vez), que por sinal foi a melhor pizza que eu já comi. Fantástica! E o melhor de tudo, apenas 7 euros, hehe.

     Aproveitei então para dormir mais cedo, já que no dia seguinte seria obrigado a acordar logo que a recepção do albergue abrisse. Tirei proveito da situação e, logo que acordei, fui direto à Galeria Academia, um dos dois museus mais famosos de Florença (e de todo o mundo, quando se trata de arte renascentista). Enfrentei uma fila minúscula (para os padrões de Roma), e, depois de menos de meia hora já estava dentro!

     Museu legalzinho. Teria adorado se arte renascentista fosse a minha área, mas não é. Então foi só legalzinho mesmo. Mas, a grande exceção foi a estátua de Davi, de Michelangello. Essa sim foi de tirar o fôlego! Simplesmente fenomenal, uma estátua de mais de 3 metros de altura, tão perfeita que parece real. A riqueza de detalhes é algo absurdo, é possível ver as veias na mão de Davi, a pontinha das unhas, cada músculo, tudo é inacreditavelmente perfeito.

Estátua de David, de Michelangello

     Terminei a visita ao museu na hora do almoço, e após um Kebab, logo voltei ao albergue. Estava lá, usando a internet tranquilamente quando tive mais uma desagradável surpresa. O dono apareceu, perguntou quando era o meu check-out, e sabendo que eu não ficaria mais uma noite no albergue, resolveu me pedir para me retirar. Achei aquilo o maior absurdo do mundo, ainda mais depois do que aconteceu na noite anterior, mas depois de discutir e bater boca, xingar até não poder mais, resolvi que iria sair mesmo daquele lixo, ainda que ele tivesse mudado o discurso e autorizado que eu ficasse mais lá.

     Saí na hora certa. Resolvi que ainda não era hora de desistir de Florença e, debaixo de chuva, parti em direção ao Il Duomo, uma das maiores catedrais do mundo. Fiquei surpreso quando entrei lá, o lugar era tão grande que faz a Catedral de Notre-Dame parecer uma capelinha (apesar de que a beleza do lugar não se compara com a catedral francesa). Achei engraçado, já que a Catedral de Notre-Dame era, até o momento, disparado a maior catedral que já tinha visto... Mas não tem limite mesmo para o que o dinheiro do dízimo pode fazer.

     Uma construção de tamanha magnitude não podia deixar de ter uma cúpula, e essa tinha uma com nada menos que 82 metros de altura. Pagando-se 6 euros, pode-se subir os 414 degraus e ter uma visão da cidade toda, então, após relutar um pouco (a grana tá no finalzinho), resolvi que enfrentaria a última fila gigantesca da viagem e subiria até o topo. O motivo maior para eu mudar de idéia foi que a chuva havia dado uma trégua, e eu poderia esperar na fila sem me encharcar denovo.

     E foi aí que o fato mais bizarro da viagem aconteceu...

     Após pouco mais de uma hora na fila, comecei a subir os degraus. Após alguns minutos, uma primeira vista da cidade. Vista bonita, mas uma má notícia: a chuva havia voltado, e não estava fraca não.

     Mais uns minutinhos subindo degrau a degrau, junto com uma multidão, e mais uma janelinha. Sim, a chuva havia piorado, e o céu estava cinza escuro. Estava realmente medonho, e nessa hora eu só pensava em como estariam os coitados que estavam ainda na fila.

     O último lance de escadas estava chegando, e quando faltavam pouco mais que dez degraus, um segurança me solicitou que parasse, para que o pessoal que estava lá em cima descesse. Ele disse: dez sobem, dez descem. Estava então esperando os dez descerem, e eu seria então o primeiro a subir ao topo. Teria sido assim, se não tivesse acontecido algo totalmente inesperado.

     De repente, do nada, ouvi uma explosão, algo que eu não consigo descrever de tão alto. Parecia uma bomba, e veio acompanhada de um clarão azul de cegar os olhos. A escada, que era onde eu estava piscou como um super-flash de máquina fotográfica, apesar de ser escura normalmente. E meu coração acelerou, minhas pernas tremeram.

     Pânico.

     Um tumulto começou. Gente gritando, um empurra-empurra para descer as escadas. O walkie-talkie do segurança começou a receber chamadas, perguntando o que diabos havia acontecido. O segurança, branco de medo, não sabia o que fazia, apenas gritava tentando conter o tumulto. Ninguém entendia nada, apenas morria de medo e gritava socorro.

     As luzes se apagaram.

     Logo desceu uma garota chorando horrores, dizendo que havia caído um relâmpago no centro da cúpula. Chorava e chorava, desesperada, e não sabia para onde fugia. O segurança perguntou se estavam todos bem, se alguém havia se ferido. Felizmente, parecia que todos estavam bem, apesar de completamente aflitos.

     As dezenas de pessoas que estavam no topo não sabiam o que faziam. Se empurravam para conseguir descer, mas não podiam, já que as luzes haviam se apagado. E era impossível descer aquelas escadas sem luz, aquilo ficava um breu total. Demorou cerca de meia hora até as pessoas começarem a se acalmar, e, com o auxílio de alguns seguranças que chegavam ao topo naquele momento, todos começaram a descer com o auxílio de algumas lanternas.

     Esperei a confusão toda passar e, sim, acreditem se quiser, eu subi lá em cima ainda. Subi sozinho, ninguém mais teve coragem, mas pude apreciar uma vista de toda Florença enquanto nevava, e foi realmente algo marcante. Confesso que meu coração estava a mil por hora, mas valeu a pena.

     Parei então para refletir sobre o que tinha acontecido, mas não pude concluir se eu havia tido sorte de ter presenciado esse acontecimento maluco, de camarote, ou se havia tido azar, por não ter tido a oportunidade de ver um relâmpago cair a um metro de distância de mim. Sorte ou azar, só sei que foi algo memorável, e tenho certeza de que não vou esquecer as feições de pânico no rosto de tanta gente, ou aquele clarão azul sobre a minha cabeça.

     Não vejo a hora de procurar na internet a notícia do acontecimento.

Vista da cúpula do Il Duomo

Roma, non basta una vita!

     Estar no lugar errado, na hora errada. Foi exatamente o que aconteceu comigo nessa viagem à Roma, que por sinal era para ser uma das mais fascinantes até o momento. A fascinante idéia de fazer uma viagem à Itália durante o feriado de Páscoa se mostrou um tanto quanto besta, especialmente considerando que o clima estava pra lá de ruim - chuva, chuva e mais chuva. Mas, de posse de um ticket para o trem-noturno comprado com tanta antecedência, por um preço de banana, nada seria motivo para me fazer desistir da viagem.

     A cidade é maravilhosa, no entanto. De acordo com o Lonely Planet, "possivelmente a única capital européia com mais ruínas do que cocô de cachorro". E é verdade, andar pela cidade, principalmente na região ao redor do Coliseu, realmente te faz sentir diferente, e te faz imaginar como seria a vida na Roma Antiga. Ruínas aqui, mais ruínas ali, e, se você prestar bastante atenção, ainda pode encontrar mais ruínas lá, e aos poucos a gente vai remontando a história e entendendo melhor sobre todos aqueles lugares que ouvimos falar em filmes ou no colégio mas que nunca entendemos direito.

     O início da aventura foi bem legal. O trem noturno que ia de Berna a Roma era bem interessante: basicamente, o trem era um dormitório, com camas e mais camas para o pessoal passar a noite dormindo, e chegar em Roma às 9 da manhã seguinte. Fiquei num vagão com 6 camas, agrupadas como se fossem 2 treliches, e pelo menos na minha opinião, a viagem foi bastante confortável: pude dormir do início ao fim, acordando pouquíssimas vezes durante a noite. E por volta das 8 da manhã, ainda fui surpreendido por um serviço de "quarto" servindo um café da manhã e recolhendo as roupas de cama. Show de bola.

Trem noturno de Berna à Roma

     O jogo começa a virar logo ao chegar em Roma. Buscando fazer economias (já que tenho gastado horrores nessas minhas viagens de fim-de-semana), reservei um albergue bem afastado da cidade, que tinha um preço mais razoável. Acontece que, embora reservado como um albergue, o lugar era mais um "camping ground" com uns dormitórios que um albergue propriamente dito, o que não seria problema algum se não estivesse caindo um pé d'água e tudo não tivesse virado uma lama só. No fim das contas, 10 euros por noite foi mais do que um preço caro para um lugar onde eu passei frio até durante a noite, e onde os chuveiros nem tinham água quente direito.

     O ponto positivo foi que eu conheci uma galerinha massa, com quem fui bater perna pela cidade já no primeiro dia. Começamos com o Coliseu, e de lá fizemos um percurso passando pelos principais monumentos: Arco de Constantine, Fórum Romano, Tempio di Antonino e Faustina, Basilica Aemilia, Lapis Niger, Arco di Settimo Severo, Tempio di Saturno, Tomb of the Unknown Soldier, e outros vários lugares que eu nem sei o nome. Fomos então ao Pantheon, esplêndido monumento que me impressionou bastante, e então à Fontana di Trevi, onde pude jogar uma moeda sobre meu ombro e, como diz a lenda, garantir o meu retorno à Roma.

Coliseu

Monumento do Soldado Anônimo

Pantheon

Fontana de Trevi

     Após um pit-stop para uma pizza e um gelado, fomos ao Castel Sant'Angelo e seguimos ainda um pouco mais a oeste, chegando finalmente ao Vaticano. Não fiquei muito tempo lá por dois motivos: primeiro, porque eu voltaria ao Vaticano na manhã segunte, e segundo porque a chuva a esta hora já começava a atrapalhar os meus planos.

Castel Sant'Angelo

Praça de São Pedro, no Vaticano

     De volta ao "camping ground", uma cerveja com os novos amigos, e cama. Dormir cedo para acordar cedo, e chegar o quanto antes no Museu do Vaticano, famoso pelas filas quilométricas, e conseguir entrar antes do meio dia. Ótimo, até aí. No dia seguinte, consegui chegar à fila do museu às 8h30, e esse foi o início da jornada. Debaixo de chuva forte, enfrentei fila por 4 horas - sim, 4 horas! - , só conseguindo entrar no museu quase 1 hora da tarde. Estava ensopado, cabelos, jaqueta, calça e, principalmente, os pés. Já estava criando bolha nos pés, de tanto andar na chuva com o pé molhado. Durante essas longas 4 horas, só o que passava pela minha cabeça era como eu pude ter sido tão ingênuo de marcar uma viagem à Roma num feriado como Páscoa, e ainda por cima com um clima tão ruim!

Fila para o Museu Vaticano

Finalmente, entrada do Museu Vaticano

     O museu ajudou um pouco a recuperar meu humor. É um ótimo museu, dá pra passar horas lá sem ver o tempo passar, muita coisa interessante, muita arte renascentista. Destaque especial para a Capela Sistina, ao final, com incríveis obras de Michelângelo.

     Após um bom almoço típico, os planos seriam visitar a Basílica de São Pedro. Chegando lá, para a minha surpresa, uma fila tão grande que contornava aquela praça oval do Vaticano, a Praça de São Pedro. Fiquei na fila por mais uma hora e meia, debaixo de chuva forte, sempre imaginando por que é que o São Pedro não colaborava um pouco conosco, já que queríamos visitar justamente seus aposentos. Nada, ele não ouviu minhas preces, e a chuva continuou. Já estava começando a anoitecer quando resolvi perguntar ao policial por que a fila não andava. A resposta foi: esta não é a fila para visitar a Basílica, esta é uma fila para assistir à missa de Páscoa, e só entra quem tiver o ingresso.

     AEEEEE! Maravilha!!!!! Puto da vida, dei meia volta e tomei o caminho de volta ao camping, disposto a fugir logo da cidade na manhã do dia seguinte e seguir a Florença. E assim seria, se não tivesse mudado meus planos no último minuto. A caminho da estação de trem, ouvi um pessoal comentando sobre a missa de Páscoa que aconteceria no Vaticano dentro de uma hora, e coisas do tipo: "Não me importa a chuva, eu só quero é ver o Papa!", ou "eu quero poder olhar aquelas fotos do Vaticano lotado, transbordando gente, e pensar: eu estava lá!". Bem, puxei papo com eles e, meia hora depois, estava eu lá no meio da multidão, aguardando debaixo de chuva a hora em que o Papa apareceria ao público. Pude ver o Papa, ao vivo e pelos telões, assisti metade da missa, e quando eu estava praticamente afogando com tanta água nas minhas roupas, decidi dar meia volta e seguir viagem.

Missa de Páscoa, com a presença do Papa

     E foi assim que terminou a aventura pela cidade que, por séculos, foi o centro do mundo ocidental. Passei minhas horas no trem para Florença refletindo se o dilúvio de Noé poderia ter acontecido em Roma, e se a Basílica e Praça de São Pedro são realmente de São Pedro, ou, se são, se ele estava só de sacanagem com a gente. Abandonei a cidade então sem ter tido a oportunidade de conhecer lugares famosos como a Basílica de São Pedro, mas com a tranquilidade de ter arremessado a moeda na Fontana de Trevi, garantindo então que eu ainda volto um dia.