sábado, 16 de agosto de 2008

Uma jóia à beira do mar Báltico

     Meio perdida, tanto geograficamente quanto na mente das pessoas, a Estônia foi, sem sombra de dúvidas, a surpresa mais agradável até o presente momento da viagem. Como é a Estonia, quantos habitantes tem, onde fica... Nada disso eu saberia responder se me perguntassem um ano atrás. Porém, o fato de o país ser todo novidade só fez com que minha experiência fosse ainda mais agradável e surpreendente.

     Cheguei lá meio perdido. Com excessão de alguns amigos que havia feito em Helsinki e que eu encontraria novamente ali, não conhecia ninguém, nem tinha um mapa decente para me ajudar a me locomover. Também não sabia como chegar ao albergue que tinha reservado. Ou seja, num país onde as coisas já não são tão fáceis como na Europa Ocidental, eu poderia estar em apuros. Já nem todo mundo falava inglês, e a língua - estoniano - é ainda mais estranha e incompreensível que as línguas do Leste Europeu.

     Com a ajuda de alguns turistas, fui achando minhas direções e, com um pouco de trabalho, cheguei ao albergue. Fui andando mesmo, já que o albergue ficava bem na cidade antiga, que, por sua vez, se localizava estrategicamente próxima ao porto. Ótimo, menos trabalho, menos chance de errar.

     O albergue era ótimo. Um clima bem agradável, os funcionários bem amigáveis e um ambiente super propício para conhecer pessoas. Deixei minhas malas por lá e já fui sair pra conhecer a cidade antiga.

     Logo que saí, já dei de cara com uma lojinha que furava piercings. Como já havia tirado meu piercing da sobrancelha desde o início do trabaho na UPS, achei que seria legal se eu furasse denovo para usar durante toda a viagem. Colocar piercings é geralmente extremamente caro, principalmente na Europa. Mas como a Estonia era, até o momento, o país mais barato que havia visitado, resolvi que não ia esperar mais mesmo. Então eu furei.

     A cidade antiga de Tallinn é algo indescritível. De todas as cidades que já havia visitado, nenhuma tem uma cidade antiga tão bonita, completa, e bem preservada. Andar por aquelas ruazinhas é realmente como se a gente fizesse uma viagem no tempo para a idade média. Na praça central, vários dos restaurantes e museus tem pessoas que ficam à porta convidando as pessoas a entrarem. Todas essas pessoas se vestem à carater, como roupas típicas da idade média, e isso contribui demais para dar o clima à cidade também.

     Uma coisa que eu adorei também é o fato de que não há tantos turistas por lá como há no Leste Europeu. Dizem que Praga é linda, e que parece um conto de fadas. Em parte, é verdade. Mas a quantidade de turistas que se encontra por lá faz aquilo tudo perder um pouco o charme. Em Tallinn não, não se vê aquele tanto de inglês, americano (e brasileiro) andando pelas ruas. Até tem, mas é bem menos concentrado. E aí, sobra mais espaço pros locais mesmo.

     Mas, como já se pode ler em todo e qualquer guia de viagem, Tallinn é uma cidade que logo logo vai cair na boca do povo. Cada vez mais turistas visitam a recém-descoberta cidade, e companhias de cheap-flights já começaram a voar direto pra lá, levando vários e vários ingleses a 15 pounds o trecho. Ou seja, melhor aproveitar logo, né?

     E tem ainda outro ponto em que a Estonia deixa qualquer outro país do mundo no chinelo: a balada. O que é aquilo!?!? Não existe balada igual a de lá, eu realmente pude comprovar que todos os boatos que vinha ouvindo eram verdadeiros. E, como programei minhas datas cuidadosamente, aproveitei quinta, sexta, sábado e domingo à noite em Tallinn. E que dias (noites) perfeitos!

     E aquele tempo passou voando. Fiz vários e ótimos amigos estonianos, que vão ficar na memória. Pessoas super amigáveis, simpáticas, abertas, felizes e interessantes. E, o melhor, pessoas que curtiam a vida, e aproveitavam cada momento! E ainda dizem que o Brasil é a terra da festa e de gente bonita...

Impressões sobre a Escandinávia

Helsinki - Finlândia

O chato do albergue...

     Dormir em beliche, dividir o quarto com mais nove pessoas, acordar com o ronco do vizinho de cama, tomar banho com agua meio quente meio fria... Nada disso me incomoda quando durmo em albergue, e tudo muito pouco perto dos beneficios que se tem. Mas, se tem uma coisa que eu nao tolero mesmo e o tal do chato do albergue.

     O chato do albergue difere do chato convencional em varios aspectos. Ele e aquele que quer puxar papo com todo mundo, mas na conversa, quer ser o unico a falar. Ele e aquele que faz brincadeirinhas sem graca, que todo mundo ri so para nao desconcertar o coitado. Ele e aquele que quer mostrar as fotos de sua viagem pra todo mundo, ainda que ninguem tenha seuqer pensado em pedir. Ele e aquele que diz que ja visitou o mundo inteiro, e solta frases do tipo: "you know, I can say that the world is quite big". Ele e aquele que diz que fala 10 linguas, mas so com o ingles consegue se comunicar. Ele e aquele que pensa que e o cara mais legal do mundo, mas nao e verdade. A verdade e que ele e um Chato. E um Chato da pior especie.

     Durante minhas estadias em albergues, tive o desprazer de encontrar alguns Chatos de Albergue. Mas, no momento em que vos escrevo, em Helsinki, digo que estou sofrendo com a presenca de uma chata de grau mais elevado. Estou aqui, sentado na mesa do cafe da manha, sofrendo com a voz dela, que por sinal, esta incomodando um novo hospede apos perceber que eu nao queria papo com ela mesmo.

     Ouvindo a conversa, nao ouco a voz do coitado nem por um segundo. A Chata nao para de falar: "tal pais e assim, meu pais e o melhor, a comida e ruim, o outro albergue que fiquei e o melhor, esse pais e chato, o ultimo que visitei e melhor, eu falo frances, mas meu frances esta piorando porque nao pratico, e o meu alemao as vezes melhora e as vezes piora, dependendo do meu humor... As outras linguas que falo sao so por diversao. Eu sou metade sueca, metade chinesa, mas mesmo assim nasci na australia, entao eu tenho um pouco do mundo inteiro. E, voce sabe, o mundo e muito grande, por isso eu resolvi viajar. E claro, a gente tem que aproveitar cada minuto de nossas vidas como se fosse o ultimo. Bla bla bla bla bla bla bla bla.... Aaaaaahhhhhh!!!!

     Se eu ja sofro so de ouvir a conversa, imagine o coitado dividindo a mesa com ela, que ainda tem que fingir que esta prestando atencao. Alias, acabo de perceber que ele conseguiu se escapar, levantou da mesa e disse que precisa arrumar a mala. Esperto. Tomara que nao sobre pra mim agora.

     Nao e de se surpreender que cada vez mais pessoas desviam o olhar quando ela vem em sua direcao, que cortam o assunto quando ela solta uma frase, ou nao riem mais de suas piadinhas sem graca. E que eu sei que nao sou o unico, eles tambem conhecem a especie. E, assim como eu, nao toleram o maldito do Chato do Albergue.

Cruzeiro na Escandinávia!

Estocolmo - Suécia

Pit-stop...

Budapest

Bratislava

Vienna

Fome de carne!

     Ja estava ha muito tempo esperando chegar a algum lugar com precos de comida mais acessiveis, e Cesky Krumlov, no interior da Republica Tcheca, se mostrou perfeitamente adequada.

     Para que?

     Ora, para jantar um bom steak bovino, suculento, sangrando, boiando naquele caldinho... Putz! Ja tava passando da hora! 6 meses na Europa e nada de bife ate agora!

     No final da tarde, entao, sai a caminhar pela cidade para encontrar qual seria o lugar que me serviria o steak com o melhor custo-beneficio. E nao e que eu acabei encontrando um restaurante que servia steak "brazileiro" com um preco razoavel? 200 gramas ao equivalente a 6.7 euros! To dentro!!!

     Chegando la entao, pedi o cardapio e comecei a preparar o apetite. O cheirinho do lugar ja tava matando! Esperei a garconete chegar e mandei logo: "Me ve um steak brasileiro, 200g!".

     Para a minha infelicidade, veio a resposta: "Qual o side dish?". Caramba, a casa caiu. Juniorizei bonito, todo mundo sabe que na Europa, se voce pede carne, vem carne. Nada mais. E, por isso, nada de 6.7 euros. Esse seria o preço da carne, mais nada. Com acompanhamento sairia muito mais!

     "Side dish?" - perguntei, com cara de ponto de interrogacao.

     Ela mudou a pagina do cardapio entao para a pagina dos acompanhamentos, como que ensinando uma crianca a ler. Dei aquela olhada rapida, pa pa pa, e mandei logo: "arroz!"

     Obvio, ne! Matar a saudade do Brasil com um bife suculento e arroz acompanhando!

     Mas nao e que a garconete comecou a rir de mim?

     "Arroz"?????

     "Sim, arroz! Minha filha, eu sou brasileiro, eu sei o que eu estou falando. No Brasil, carne vem sempre com arroz!" - respondi.

     "Ta bem, voce e quem sabe" - ela respondeu, ainda rindo.

     E ficou desse jeito, olhando pra mim sempre e rindo da minha cara, so porque eu pedi um "bife com arroz"! Ve se pode?

     Passados entao alguns minutos, chega entao com a garconete (ainda com um sorriso no rosto) o meu bife com arroz. E, como alegria de pobre dura pouco mesmo, o steak tava hiper-passado, mal-tempeirado (uma pimentinha do reino fajuta), e, o pior, o arroz sem tempeiro nenhum! Tipo aqueles de comida japonesa mesmo! Ah, vai te catar, ne?

     Bom, taquei sal e mandei bala. Mas e foda, ne? E embora a comida viesse mal tempeirada, o preco se mostrou mais salgado do que aparentava... E nada de qualidade! Po, ta na hora desses tchecos aprenderem com os brasileiros como e que se come um churrasco de primeira!

Praga

(so um ps. Todos esses ultimos posts estao sendo escritos da escandinavia, ja que eu estava muito atrasado. Esse, por exemplo, eu estou escrevendo do navio de Helsinki para Tallinn)

     E entao comecou a jornada pelo leste europeu. As expectativas eram enormes, e o pique, mesmo apos o Queen's Day na Holanda, ainda era suficiente para muita diversao. Os proximos 11 dias seriam fantasticos, tinha certeza.

     Cheguei em Praga sozinho, na quinta-feira de manha. O Bruno, amigo de infancia em Divinopolis, com quem toquei algumas vezes junto na banda Billy Cleavers, estava fazendo um intercambio pela UFMG na Universidade do Porto, e combinamos de nos encontrar em Praga no domingo. Ate la, meus planos eram aproveitar dois dias e duas noites em Praga, viajar a Cesky Krumlov no sabado, pernoitar la, e encontrar o Bruno na manha de domingo em Praga, com quem viajaria junto ate o final, em Budapeste. Dito e feito.

     A comecar pelo albergue, fiquei incrivelmente surpreso. Apesar de muito barato, era tambem confortavel, limpo, e bem divertido. E pude perceber com o tempo que essas seriam caracteristicas comuns a todos os albergues do leste europeu. Fiquei hospedado fora do centro, longe da turistada e perto da verdadeira Praga, onde podia encontrar comida bem tipica e supermercados incrivelmente baratos, bem perto de mim.

     E Praga foi um sonho.

Amsterdam e o Queen's Day

     Ja havia visitado Amsterdam cerca de um mes atras. Mas Amsterdam foi uma cidade tao interessante, que mesmo com pouco tempo (e dinheiro) disponivel, nao me importei em dar um pulinho la novamente. Entao, seguindo a recomendacao do meu chefe (hehe, ele sabe das coisas), resolvi ajustar meu calendario para que estivesse la exatamente no dia da maior comemoracao (leia-se festa) do ano: o Queen's Day.

     O Queen's Day e a celebracao do aniversario da rainha - da anterior, nao da atual. E um dia onde ha um incrivel sentimento nacionalista, quando todos se vestem de laranja e vao as ruas comemorar. Alias, nao so as ruas. Os famosos canais de Amsterdam ficam transbordando barcos, e quase impossivel passar por certos trechos dos canais. E, junto com isso, inumeras barraquinhas sao montadas nas ruas, o transito regular de carros e impedido, e pronto, esta feita a festa: milhares e milhares - estimam-se mais de 300 mil - de pessoasse embragam e se divertem nas ruas e canais.

     Foi realmente inacreditavel, apos 6 meses na Europa, pude sentir novamente o gostinho de uma boa festa de rua, bem ao estilo do carnaval brasileiro. Nada comparavel as festas que ja tinha experienciado na Suica ou em qualquer outro pais. Os holandeses, sem duvida, ganharam meu respeito. =)

     O periodo oficial da festa dura da noite de 29 de Abril ate o final do dia 30. Mas e como no carnaval no Brasil, o clima de festa e comemoracao ja comeca uma semana antes, e dura ate o fim de semana seguinte. Eu cheguei la na tarde do dia 28, entao pude vivenciar o periodo mais animado.

     Embora a ideia inicial fosse encontrar o Thiago, do ITA, novamente em Amsterdam (ele tambem, como bom brasileiro, nao podia perder essa farra, ne?), por algum problema nos nossos celulares nao conseguimos nos comunicar para nos encontrar na multidao. Entao, por sorte, encontrei dois brasileiros vestidos com uma camiseta da Aiesec e logo estavamos andando juntos. Foram otimos parceiros para o dia todo! E ainda nao falei com o Thiago, mas aposto que ele soube se divertir bem tambem!

     Fui embora para Praga na manha do dia primeiro, sem ter dormido nem um so minuto, mas ja com uma ressaca absurda. Mas nada de descansar, esse e so o comeco. Praga, sem duvida nenhuma, ainda promete muito.

     E da-lhe "Live, laugh, love... Sleep later!"

Berlim

     Apos tantas viagens sozinho pela Europa, os proximos destinos seriam visitados quase sempre com alguma companhia. A comecar por Berlim, encontrei logo na noite de sexta o Bailarino, amigo do ITA que esta morando atualmente la para fazer um projeto na universidade TU Berlim.

     Berlim me surpreendeu de uma maneira muito positiva. Posso dizer que nao esperava muito quando coloquei meus pes la, mas apos poucas horas ja estava encantado com aquela cidade que tem algo de especial, algo que nao consigo descrever. Algo que e preciso estar la para sentir.

     Tanta historia que faz inveja em quase qualquer cidade da Europa. Mas uma historia diferente do que se encontra normalmente. Nao e como Roma, que respira historia antiga, e nao e como Franca ou Espanha, que se orgulham de uma historia principalmente a partir da idade media e ate o final do seculo 19. Nao. Berlim transpira uma historia recente, tao recente que e quase possivel sentir ainda o cheiro dos ataques nas duas guerras que praticamente levaram a cidade ao chao, e da dupla-face comunista/capitalista, que mostra sutilmente o que um dia foi dividido fisicamente por um muro.

     Foi ontem! Logo se sente que historia nao e sobre um outro mundo, que de tao distante se faz parecer irrelevante. E tambem sobre o que aconteceu com nossos avos, nossos pais, o que aconteceu ontem e o que estamos fazendo agora. E que sentimento de responsabilidade que esse pensamento nos da!

     O melhor de ter o Thiago comigo em Berlim foi que ele pode me levar aos lugares mais interessantes possiveis, que certamente eu nao encontraria por minha propria conta. Destaco aqui um predio na metade ex-comunista da cidade, que fora abandonado em certo momento e completamente depredado. Paredes pixadas de grafite, tetos sujos, lampadas piscando por mal-funcionamento, chao sujo. E, no quarto andar, uma exposicao de arte! Uma incrivel exposicao de arte contemporanea de um artista Tcheco, absurdamente talentoso. Algo para ficar na memoria!

     Berlim e isso, uma mistura do novo com velho, de capitalismo e comunismo, de destruido com restaurado. E, como disse, nao adianta ler ou ver fotos. So estando la mesmo para entender.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Volta ou nao volta?

Leste europeu, Escandinavia, Russia, Mongolia, China e India se passaram. Tudo muito rapido, nao parece que foram meses... Cheguei ontem na Tailandia, onde fico ate o final do mes, para no dia 30 finalmente voltar ao meu saudoso Brasil varonil.

As lembrancas sao muitas. Cada pais deixa uma marca muito forte, e muita coisa nao se apagara da minha mente nunca mais. Mas, infelizmente, muitos dos sentimentos vao embora, e a descricao que eu tentar fazer do que se passou nao sera a mesma para um lugar de onde acabei de chegar e para um lugar onde visitei ha meses atras.

Eu sempre soube disso, mas ainda nao me disciplinei a parar tudo, sentar em frente a um computador e escrever. Escrever por escrever, sem nenhum objetivo concreto, a curto prazo. Simplesmente para expressar opinioes, reflexoes e sentimentos. As vezes sentia vontade, e quase comecava. Mas a vontade passava tao subitamente quanto ela chegava, e uma distracao qualquer ja levava meu pensamento para longe, e escrever se tornava algo tao entediante que seria (e foi) impossivel parar o que eu estivesse fazendo para registrar pensamentos e fatos passados.

Durante o tempo na Suica era mais facil. As vezes chegava do trabalho, nao tinha muito o que fazer, nao tinha muita gente com quem conversar, e escrever era uma otima forma de "passar o tempo". Por esse motivo, pensei que talvez fosse melhor esperar que eu voltasse ao Brasil para escrever sobre o que passou. No ITA, chegando em casa depois de um dia de laboratorio, usar a desculpa de escrever para fugir do estudo seria muito facil. Melhor assim do que "passar o tempo" precioso da viagem escrevendo. Entao assim planejei.

Acontece que me assustei ontem. Sentado na varanda do albergue, conversando com outros mochileiros, fui questionado sobre meu itinerario. Surpreso quando citei a Russia, um deles me perguntou o que eu achei de la, qual foi a sensacao, e tal. Eu parei, pensei, pensei, pensei, e respondi: "Incrivel, foi realmente um dos meus paises preferidos".

Nada de mais, se nao fosse pelo fato de que eu seria incapaz de descrever em maiores detalhes qual foram as minhas sensacoes. Posso dizer o que eu vi, o que eu fiz, quem eu conheci, onde eu fui, etc. Mas a esse ponto, meses apos, ficou dificil lembrar o que eu senti. A Russia foi realmente incrivel, e foi realmente um dos meus paises preferidos, mas essa e uma descricao muito superficial das minhas impressoes.

E ai me bateu um arrependimento, pela primeira vez, de nao ter escrevido sobre cada pais durante o tempo em que eu estive la. Talvez, se eu tivesse escrevido sobre a Russia sempre que a vontade veio (e ela veio varias e varias vezes), muitas das minhas lembrancas estivessem registradas. Mas, infelizmente, passou, e so o que ficou foi o arrependimento.

Mas, seguindo a filosofia do "antes tarde do que nunca", tenho certeza de que ainda sobrou muita coisa nessa cachola. Entao decidi que vou comecar a descarregar tudo nesse blog de agora em diante, torcendo para que eu consiga lembrar de cada detalhe.

A comecar por agora!

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O meu destino e agora!!!

Comecava entao, no dia 25 de Abril, o inicio do fim da odisseia. Seriam pouco mais de tres meses viajando, numa aventura que pode ser dividida em duas etapas: diversao, na viagem pelo Leste Europeu, e experiencia unica de vida, pela Russia e Asia. Entre as duas etapas, um pit-stop na Suica para recarregar as baterias e dar um adeus final aos amigos e colegas de trabalho.

Recapitulando o roteiro:

Logo apos Eindhoven, Berlim, por 3 dias. Em seguida, Amsterdam (pela segunda vez), para o Queen's Day. Entao, Praga e Cesky Krumlov, na Rebublica Tcheca, Viena, na Austria, Bratislava, na Eslovaquia, e Budapeste, na Hungria. Tempo total na estrada: 18 dias.
Breve parada na Suica por 4 dias.
De novo na estrada, Ryanair para Estocolmo, na Suecia, seguida por Helsinki, Finlandia e Tallinn, Estonia. Entrando entao no mundo nao-convencional, comeco com St. Petersburgo e Moscou, na Russia, e logo em seguida, pego o famoso trem pela Siberia. Paradas em Irkutsk, capital da Siberia, e Ulan-Bator, capital da Mongolia. O ponto final do trem: Beijing, China. De la embarco para India, por tres semanas, e, finalmente, Tailandia, para as ultimas duas semanas. Tempo total de viagem: 73 dias.
E, no dia 29 de Julho, volto para a minha base, na Suica, onde busco minhas malas e pego o aviao na manha do dia 30, para o esperado (?) retorno ao Brasil.
Como ja dizia Marisa Monte: "O meu destino e agora, pra onde me levar a minha voz - e o meu cartao de credito - eu vou".

A fadiga holandesa e a alema

Uma coisa me surpreendeu muito nessa semana de trabalho na Holanda. Trata-se de uma diferenca cultural entre a Holanda e a Alemanha, que retrata muito bem como sao esses dois povos.
O escritorio da UPS em Eindhoven, por estar muito bem localizado na Europa, possui a caracteristica de administrar os armazens centrais das empresas clientes da UPS, que por razoes obvias ficam todos no centro da Europa tambem. Dessa forma, Eindhoven acaba tomando conta de uma serie de armazens, especialmente na Holanda e no norte da Alemanha.
"Tomar conta" inclui bastante coisa, sendo uma delas analisar a efetividade dos trabalhadores do armazem. Sendo assim, eles tem registrado em tabelas quanto tempo cada trabalhador leva para fazer atividades como escanear etiquetas, imprimir recibos, levar o produto a parteleira, abrir caixas, etc. No entanto, e obvio que a soma do tempo de todas as atividades desempenhadas num dia nao vai ser igual ao tempo trabalhado de fato, ja que os trabalhadores acabam gastando tambem algum tempo fazendo coisas nao relacionadas ao trabalho: fumar um cigarro, uma conversinha com o amigo, um almoco demorado... Isso e normal e aceitado, quando nao ultrapassado certos limites (nao da pra ficar o dia inteiro batendo papo tambem, ne).
Esse tempo de ociosidade e chamado de fadiga (ainda que nao seja necessariamente cansaco). E, para cada pais, ha uma chamada "taxa de fadiga", que e a porcentagem do tempo total de trabalho no qual nada de relevante foi realizado.
A parte interessante e que paises diferentes tem taxas diferentes. No exemplo de Eindhoven, os holandeses possuem uma taxa de fadiga de 20%, enquanto que os alemaes possuem apenas 15%. Interessante, nao? Ao questionar um colega sobre a razao de ter taxas diferentes em paises tao proximos, pude ver que causei um certo desconforto. Ele, meio sem jeito, me respondeu que: "ainda que pareca injusto, todos sabem que os alemaes sao muito mais centrados no trabalho do que os holandeses. Enquanto os alemaes recebem uma tarefa e, sem questionar ja estao executando-a, os holandeses estao sempre reclamando ou questionando 'por que isso', ou 'por que aquilo'. Sao caracteristicas culturais dos povos!"
Achei o maximo aquela explicacao, que foi exatamente de acordo com a opiniao que eu ja tinha. Afinal de contas, o proprio historico alemao mostra sua efetividade em trabalhar pesado e atingir resultados surpreendentes em tempos curtos - e sem questionar! E quer uma nacao mais critica que a holandesa, que legaliza prostituicao, maconha, eutanasia, casamentos de homossexuais e qualquer outra coisa que a proibicao ja seja senso-comum mas que, no fundo, nao faz sentido algum proibir.
Entao, para quem nao acredita que paises, mesmo estando tao proximos, possam ser tao diferentes, os numeros agora comprovam!

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Van da UPS!

     E, na volta ao aeroporto de Dusseldorf, olha só o que eu encontrei!

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     Produto final do meu trabalho! É a vanzinha marrom da UPS entregando no mundo inteiro! É nui!

Trabalho ou ja de ferias???

Foi essa a pergunta que eu me fiz quando estava saindo de viagem, na segunda-feira de manha. Seria uma so semana, um so projeto, num pais diferente, hotel pago, refeicoes pagas, carro alugado, e tudo isso as vesperas do inicio do mochilao que perduraria ate o retorno ao Brasil.
Eindhoven e uma cidade bem calma. E ate dificil acreditar que se trata de uma das maiores cidades da Holanda, ja que o clima e de uma cidade bem pequena mesmo. Pouca gente nas ruas, pouco a se fazer apos o horario de trabalho, pouca coisa acontecendo em geral... Mas mesmo assim, com carro (um Nissan super poderoso), hotel e comida a vontade, a gente encontra um jeito de aproveitar bem!
Durante esses cinco dias, minha rotina se resumiu em ir ao trabalho, jantar bem com os colegas, tomar uma cervejinha num pub qualquer, voltar ao hotel, tomar um banho de piscina e ler um livro no quarto. Rotina tranquila, e bem relaxante!
Pude conhecer algumas cozinhas novas, como a indiana e a tailandesa, e gostei muito - apesar de ter quase morrido quando experimentei um molho apimentado indiano, que me deixou ate sem folego! Bom, de qualquer forma e melhor comecar a acostumar, ja que tres semanas na India me esperam no final de junho.
No trabalho, sendo minha ultima semana, meu ultimo projeto, e trabalhando com um time novo, dei o maximo de mim, afinal de contas, e importante deixar uma boa impressao. Fiz novos amigos e novos contatos, e, no caso de eu realmente voltar em Dezembro, ja preparei o terreno para construir uma boa rede de relacionamentos.
E, finalmente, na tarde de sexta-feira, voltei a Dusseldorf para pegar meu aviao para Zurique, onde faria conexao para Berlim. Era o inicio da aventura. Mochila nas costas e o coracao a mil por hora. Sentimento bom que e sair de viagem!
E a viagem promete!!!

Kick-off!

     Logo após o paragliding, peguei o trem e já fui direto pra encontrar o pessoal da Aiesec por uma última vez. A situação não podia ter sido melhor: era conferência nacional, Kick-off, onde se reuniram mais de 300 estudantes de toda a Suíça. E, além disso, praticamente todo o comitê de Berna estava presente, então foi ótimo rever todo o pessoal.

     Mas o mais incrível de toda a história foi o simples fato de que, 6 meses atrás, estava eu, chegando do Brasil à Suíça, e indo diretamente para a conferência nacional da Aiesec. E essas conferências acontecem uma vez a cada semestre! Ou seja, foi uma coincidência tremenda eu ter inaugurado minha estadia e fechado com chave de ouro, ambos em conferências nacionais da Aiesec.

     A noite foi divertidíssima (regada a muuuiitaaaa vodka e energético), e foi bom sentir toda aquela energia da galera! Deu pra ficar com um gostinho de quero mais, afinal, por mais que parecesse mentira, aquilo era realmente o início do fim...

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Paragliding Interlaken!

     Passada a emoção das despedidas, chegou a hora da emoção de adrenalina mesmo. Já estava programando esse salto de paragliding na Suíça desde que cheguei. Aliás, já fazem muitos anos que tenho esse sonho! Nova Zelândia foi uma boa oportunidade, mas passou em branco por problemas orçamentários. Mas Interlaken, na Suíça, é considerado o melhor lugar DO MUNDO para se saltar! Então eu não poderia de jeito nenhum deixar a oportunidade passar!

     Então já faz um tempo que eu estou reservando esse dinheirinho, e aproveitando para esperar passar o inverno. E aí já tinha prometido pra mim, no primeiro fim de semana que eu tiver tempo bom, EU VOU! E não é que o tempo bom apareceu pra valer mesmo só no fim de semana de ir embora? Bom, feita a promessa, agora tem que cumprir!

     Logo após acordar, tomei o trem e já fui em direção a Interlaken. E logo ao entrar no trem, o coração já começou a bater mais forte e mais acelerado. Dali a poucas horas eu estaria no ar, flutuando, sem nada, sem nada ao meu redor.

     Após uma viagenzinha de van para o topo da montanha, mais uns minutinhos de hiking para chegar ao local da decolagem, e PUTAQUEPARIU! Caraaaambaaaaa!!!! Tava no topo da montanha, e o que é que tinha na minha frente? Adivinha? Nada? Mentira!!! Simplesmente duas montanhas enooooorrrrmeesssss, uma delas sendo Jungfrau - conhecida como o topo da Europa - e dois lagos azulziiiinhoooosss!!! Foi realmente uma paisagem inesquecível, coisa de cinema!

     Após o sujeito que ia saltar comigo terminar de abrir e preparar o paragliding, uma instruçãozinha básica de segurança, e WOOOOWWW!!!

 

     LÁ VAMOS NÓS!!!!!!!!!!!!!!!

 

     Lá estava eu, voando, sem nada a me segurar, suavemente flutuando, com aquela vista maravilhosa em todos os 360 graus ao meu redor! Trinta minutos que, assim como eu, voaram, mas que vão ficar na memória pra sempre!

     A sensação??? Não dá pra descrever, é realmente impossível... Só fazendo pra ver...

     E quer saber??? FAÇAM!!! Porque eu vou repetir a dose muitas outras vezes ainda!!!!!

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As despedidas...

     Uma das coisas que me manteu extremamente ocupado durante as duas últimas semanas na Suíça foram as despedidas. Embora tenha sido ruim ter perdido quase todas as noites nas quais eu precisava fazer um milhão de coisas, foi simplesmente fantástico sentir que, apesar de tão pouco tempo, pude fazer muitos (e muito muito bons!) amigos na Suíça.

     E lá se foram então quase todas as minhas noites. Digo quase todas porque resolvi que não faria um encontro só com todo mundo. Desse jeito seria muito superficial, e eu não falaria muito direito com ninguém. Então, já que já havia recebido trocentos milhões de convites, resolvi aceitar todos, ocupando noite a noite.

     Para não me prolongar muito nessa etapa - que poderia render um post para cada encontro - vou fazer o post em forma de tópicos, contando resumidamente de cada um que eu aqui conheci, convivi, me tornei amigo, e, finalmente, me despedi. Aos que estiverem lendo esse post e não entenderem nada, boiando sem conhecer ninguém, PACIÊNCIA. Esse é o típico post que eu escrevo só pra mim mesmo, pra mais ninguém. Pra quando, já de volta ao Brasil, eu reler e lembrar de todo mundo que se tornou importante pra mim!

     Então, pra começar, passei uma noite muito massa com dois caras super legais, da Aiesec. Foram o Marcel e o Stephan. Dois sujeitos típicos suíços: sérios, mas meio desajeitados quando querem se divertir. Os dois são bem caladões, mas, apesar disso, foi bem rápido nós termos nos tornado amigos, já que, por sermos só dois trainees num comitê de mais de 40 membros, eu tive mais de 5 buddies (pessoas da aiesec que são responsáveis pelo bem-estar dos trainees), sendo que os dois estavam na lista. Durante meus 6 meses, saímos várias vezes para tomar uma cervejinha e jogar conversa fora. Então a noite, como não poderia deixar de ser, foi só uma cerveja num bar mesmo, terminando com uma baladinha-furada-de-quarta-feira-a-noite-em-cidade-pequena, que obviamente, foi idéia sem sentido.

     No dia seguinte fomos nós três novamente (eu, Marcel e Stephan) jantar na casa de duas amigas deles, que, a propósito, também acabaram se tornando muito amigas minhas durante esses 6 meses. A Daria e a Bettina são também Suíças, mas já um pouco mais da farra. Até chegaram a participar da aiesec, mas saíram rapidinho, porque não estão afim de botar a mão na massa agora mesmo. Então nos encontramos logo após o meu trabalho e comemos uma mini-mini-pizza, que descobri ser algo bem típico daqui também. É basicamente um pão pequenininho no qual vc coloca os ingredientes que vc quiser, taca queijo e molho vermelho, e coloca num forninho pra derreter o queijo. A parte engraçada é que cada uma dessas não dá pra nada, então vc tá sempre preparando a próxima pizza enquando esquenta a atual. Resultado: comida boa, vinho bom, galera boa, papo bom.

     Na outra semana, já comecei com outro jantar. Esse outro foi com a Monique e a Angelika - esta primeira uma jogadora profissional de hóquei no gelo, e a segunda a suíça mais maluca que já vi na minha vida. A Monique eu conheci ainda nas minhas primeiras semanas na Suíça, quando alguns amigos (outros buddies) da aiesec me convidaram para ir a um jogo profissional de hóquei, e lá estava ela. Como eles eram amigos, me apresentaram ela e acabamos ficando amigos. Nessa mesma noite, saímos para um bar depois do jogo (para comemorar a vitória), onde conheci a Angelika, amiga da Monique. E a Angelika era aquela suíça doidinha, faladora (gritadora), sorridente, estabanada... E, fui descobrir depois, havia aprendido a ser assim justamente onde vocês podem imaginar: no Brasil. Através de um intercâmbio do Rotary ela viveu um ano no Brasil, onde aprendeu a ser feliz! Então nessa noite comemos comida típica (não suíça, mas mexicana): Tortillas. Muito bom, por sinal... A comida e a companhia!

     Dia seguinte, jantar com um dos maiores amigos que eu fiz aqui: Simon. Sujeito interessante, 27 anos e ainda tá no meio da graduação. Super inteligente, entretanto. É DJ, já mexeu com cinema, e agora estuda psicologia, onde está trabalhando com uma iniciação científica que estuda meios de turbinar sua felicidade (sem uso de drogas, obviamente). Além de amigo meu, o Simon é também super amigo de dois outros estrangeiros: o Carlos (venezuelano, ex-intercambista da aiesec) e Jeroen (holandês, intercambista da aiesec também). Então fomos juntos nós três para comer Racklete na casa dele, um prato típico suíço (sim, dessa vez é suíço mesmo). Imagina uma fatia de queijo suíço de 8x8x1cm, onde vc joga cebola, tomate e outros temperos em cima e coloca no forninho pra derreter. Tira quando já tiver derretendo e, obviamente, como o prato é suíço, joga no prato e come com batata. Quejo com batata, a cara da Suíça.

     Ainda teve uma noite, na quinta-feira antes de ir embora, quando rolou outro jantar. Dessa vez na casa da Ozge, uma turca estudando na universidade de Berna. Desse jantar participaram também a Aline, aieseca, e o Christian, o Daniel e a Katya - esses três últimos, sem dúvida os melhores amigos que eu fiz. O Christian foi o cara que me convidou para ir no carnaval em Lucerna sem nem me conhecer, mas que acabou se tornando grande amigo meu. Ex-LCP da Aiesec em Berna, me apresentou o ex-VPX, que trabalhou na aiesec no ano dele. Esse era o Daniel, que, pouco depois fui descobrir, é exatamente o cara que me ajudou a conseguir a minha vaga na UPS, e me ajudou com tudo que eu precisei (antes do novo VPX assumir e avacalhar tudo com o meu visto). Nos tornamos grandes amigos! E a sua namorada, Katya (ou Kateryna), é uma ucraniana super gente-fina que tá passando um tempo na Suíça aprendendo alemão. Então juntamos nesse jantar a melhor galera e a melhor comida: Racklete denovo! Num é que o trem é bão mesmo?!?! E logo após comer e beber muito, ainda fomos a uma festa do Erasmus, onde só entram estudantes... Festinha mto boa!

     Além desses grandes amigos a encontrar quase todas as noites, ainda aproveitei o dia de sexta-feirapara almoçar com alguns dos meus amigos de trabalho. Na ocasião, reunimos todos os ex-intercambistas da aiesec (atualmente trabalhando full-time para a empresa) e os atuais (somente dois). Fomos então eu (brasileiro), a Krisztina (romena), o Carlos (venezuelano), Kateryna (ucraniana) e a Jana (eslovaca), que é a única outra atual intercambista da aiesec trabalhando na UPS. Comemos comida chinesa e conversamos sobre planos para a vida. Hehehe, afinal de contas, tem hora pra tudo, né?

     E foi assim que eu passei minhas últimas semanas na Suíça. No meio de tanto visto pra tirar, cancelamento de contrato de internet, devolução de equipamento de tv , problemas nos bancos do Brasil e da Suíça, e tantas outras coisas, ainda ocupei todas as minhas noites com as despedidas. Também não poderia deixar de ser, né?

     Bom, pelo menos agora eu já me sinto um pouco menos culpado por ter ficado tanto tempo sem postar! Aposto que agora vocês me entendem! =D

Não pára, não pára, não pára não!!!

     Ai, cacete! Tempo demais que não aparece nada novo aqui, né? Mas bom, o que importa é que o blog não pára de jeito nenhum, ainda que tire férias de vez em quando...

     As últimas semanas foram correria total, mil coisas pra resolver num tempo mínimo. E, logo depois, viagem a trabalho pra Holanda, onde eu estive super-atarefado, me divertindo todos os dias até meia-noite. E, pra terminar, quase três semanas de férias, viajando por Berlim, Amsterdam, Praga, Cesky Krumlov, Vienna, Bratislava e Budapeste. Aí já viu, né? Tava muito ocupado fazendo outras coisas para postar.

     Fazendo o que??? Ué, é exatamente isso que eu pretendo contar nos posts a seguir. Lá vai!

sábado, 3 de maio de 2008

Afinal de contas, sera que rola de postar imagens?

Vou fazer entao o teste final da autosuficiencia do celular. Tirar uma foto com ele, escrever o post, e tentar postar tudo a partir da conexao wireless disponivel no onibus...



Testando os limites da tecnologia...

O nois aqui traveis!

Mais de duas semanas se passaram desde o ultimo post. No entanto, apesar do longo periodo de ausencia, posso dizer que as ultimas semanas foram das mais intensas da minha vida. Coisas pra fazer, amigos pra encontrar, trabalho pra terminar, cidades pra viajar... Tudo isso sem intervalo pra descansar... Mas ta certo, ne? Essa viagem era pra ser assim mesmo: "Live, laught, love. Sleep later..."
Mas agora, dentro do onibus de Praga para Cesky Krumlov, na Rep. Tcheca, sem nada pra fazer, resolvi que deveria vencer a preguica e me esforcar pra retormar as atividades no blog.
E, a proposito, comecem a acostumar com o novo estilo de postagem: mais curto, sem acentos e sem imagens. O motivo e que os posts de agora em diante serao todos (ou quase todos) feito pelo celular, ja que eu optei por nao levar o laptop na viagem.
Mas bem, melhor assim do que nada, ne?

terça-feira, 15 de abril de 2008

Munich

(post-express por não ter tempo direito para escrever)

     Incrível esta última viagem à Munique! Posso dizer, sem sobra de dúvidas, que foi uma das melhores até agora. Não só pela cidade, que é linda. Mas se fosse só por isso, não diria que teria sido uma das melhores após visitar Roma, Paris e Barcelona. Mas principalmente pelas companhias. Explico...

     Fui à Munique com dois amigos trainees de Zurique. Ambos se tornaram grandes amigos meus, desde que nos conhecemos na primeira conferência em que participei na Suíça, logo que cheguei ao país. Maja e Antonio, polonesa e português, são super legais, e ajudaram a fazer o meu fim de semna um pouco mais feliz! =D

     Cheguei no sábado de manhã, e, logo de cara, conheci um dos caras mais interessantes que eu já conheci. Ficaríamos na casa dele, Nizar, um muçulmano da Tunísia. Mas o mais bizarro é que ele é um daqueles muçulmanos extremos mesmo, de ocidental qualquer ficar com medo. Logo no início do dia já pude perceber suas atitudes meio extremistas, como não entrar nas igrejas católicas ou não tomar cerveja.

     Passamos o dia fazendo um sightseeing básico. Deu pra perceber bastante a beleza da cidade, e o quanto ela é "chique" no sentido de rica. Carrões nas ruas, lojas das marcas mais famosas do mundo, e gente muito bem arrumada. Cafés onde se paga 10 euros o cafezinho, e coisa e tal. Definitivamente, não é meu estilo. Mas é legal pra conhecer e apreciar "à distância".

     Tivemos então um almoço meio que tarde, às 17h, na casa do Nizar. Comemos um típico prato tunisiano, e, apesar dos inúmeros ingredientes bizarros, foi uma das comidas típicas mais gostosas que eu já experimentei! Assistimos a um filme, e, logo depois, demos mais um passeio pela cidade à noite.

     Durante o passeio, tive uma experiência super interessante conversando com o muçulmano, sobre todos os assuntos controversos possíveis. Estados Unidos, ONU, IsraelxPalestina, Segunda Guerra Mundial, e vários outros. Foi super legal ver a opinião dele sobre os assuntos, mesmo que, às vezes, eu tivesse ficado assustado com sua posição. Mas confesso que na maioria das conversas ele provou ser uma pessoa sensata e coerente em seus argumentos.

     Logo após fomos à um barzinho, onde tomamos umas boas cervejas alemãs (exceto o Nizar, claro), e depois fomos a uma balada de música típica alemã - Electro. Muito bom!

     No dia seguinte, fizemos o famoso "Free Tour", do qual já estou virando fã de carteirinha. Mais uma vez fiquei positivamente surpreso pela qualidade do tour, com suas incríveis histórias sobre a Segunda Guerra Mundial e várias e várias curiosidades que não poderia ler em lugar nenhum por minha conta.

     Um churrasquinho, seguido de um café, encerraram o maravilhoso passeio, que provou ser um dos melhores pelas companhias. E eu, que já estava viciando nesse negócio de viajar sozinho, acabei lembrando que às vezes vale muito a pena ter alguém com quem compartilhar momentos alegres. Viajar com os amigos é o que há!

A casa caiu...

(post do celular)

     Vou ficar maluco... O adiantamento da minha saida da Suica me trouxe inumeros problemas, que estao me deixando louco. Nessa, que ja e a minha ultima semana na Suica, tenho tanta coisa pra fazer que nem se ficasse acordado 24h por dia acho que daria conta. E isso tudo sem contar com o trabalho, que, sendo minha ultima semana aqui, preciso entregar tudo pronto antes de ir embora.
     Ta certo que algumas dessas obrigacoes sao encontrar os amigos que aqui fiz pela ultima vez. E, so isso, ja ocupa quase todas as minhas noites desde semana passada. Mas considero esses encontros, jantares e barzinhos tao importantes quanto qualquer outro compromisso.
     Vistos tambem sao outro problema. Ainda preciso dos vistos para a Mongolia, China e India, e cada um desses pode ser encarado como um problema a parte. Preciso deixar meu passaporte no consulado por 4-5 dias, e nao tenho esse tempo nem para um so visto! Vou ter que apelar para as solicitacoes urgentes, que possibilitam a entrega do visto no mesmo dia, mas custam bem mais caro.
     Ainda tem o fato de que o visto para China vai ser um problemao. Devido aos jogos olimpicos, eles dificultaram o processo, e agora a aplicacao deve incluir passagem de entrada e saida e reservas de hotel para todo a estadia. To ferrado pra conseguir isso!
     E, alem disso tudo, ainda tem problemas menores como arrumar minha mala, cancelar a internet, avisar na Policia de Estrangeiros que eu vou deixar o pais, pagar inumeras contas, devolver meu General Abonament, ler meus guias de viagem, e, claro, escrever os milhoes de post que eu tenho ja na minha cabeca...
     Mas, se eu sair vivo dessa semana, na proxima eu tenho minha recompensa. A tao esperada viagem finalmente comeca, e com fim programado so pra daqui tres meses e meio!

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Dias contados...

     Os planos eram iniciar a "mochilada" pela Europa Oriental a partir do dia 25. Esses continuam valendo. A única mudança é que eu não fico mais em Berna até então... A partir do dia 21 de Abril eu viajo para Eindhoven, a trabalho, para fazer meu último projeto na UPS a partir do escritório regional de lá.

     A parte ruim é que, com isso, tenho uma semana a menos e Berna, e todos os meus planos de "último mês" agora precisam ser condensados em só mais duas semanas. Muita coisa pra fazer, muitos planos de viagem pra acertar, muitas aventuras, muitas pessoas a encontrar pela última vez... Mas acredito que vai dar tempo pra tudo!

     A parte boa é que vou poder, mais uma vez, visitar a Holanda, e de graça! Hotel 5 estrelas, carro alugado pela empresa, tudo de graça! E também é um ótimo sinal de que a empresa está confiando em mim e gostando do meu trabalho. O projeto que eu vou fazer em Eindhoven é ainda maior e mais importante do que o que eu estive fazendo até agora. Vou assumir o controle não só do Cost Model (modelo de custos) para os serviços de Post-Sales (pós-vendas), mas também o Cost Model dos serviços de warehousing gerais da UPS. Nas palavras do chefe do meu chefe - o cara "foda": "Eu quero que o Marcelo se torne o dono de todos os modelos de custos da UPS, o ótimo trabalho que ele fez até agora mostra que ele é capaz e adequado para isso".

     E, claro, isso garante também que eu tenho minha vaga garantida caso queira voltar em Dezembro. Mais do que nunca, a empresa agora está contando comigo!

Famoso em Bern

     To me sentindo "o cara" em Berna! Me convidaram essa semana para fazer um artigo para a revista oficial da universidade de Berna, chamada Unikum.

     Me encontrei na terça-feira com o reporter, que me entrevistou com perguntas sobre a minha motivação para vir à Suíça, minhas expectativas pré-viagem, minha experiência pessoal e profissional e meu envolvimento com a Aiesec, de forma geral. A entrevista foi feita em inglês, para que eu pudesse me expressar de forma mais fácil.

     E hoje, sexta-feira, logo após o trabalho, me encontrei com um outro ex-intercambista da aiesec (que fez intercâmbio da Suíça para a Ucrânia), e, juntos, tiramos algumas fotos para usar no artigo. Hehehe, tirar fotos para revista foi super engraçado. Tínhamos que obedecer a comandos do tipo: "sorriam, fiquem sérios, olhem para o horizonte..."

     Dentro de alguns dias vou receber um email com uma prévia da matéria, e, daqui um mês, mais ou menos, recebo a matéria completa em formato .pdf. Posto aqui o resultado final assim que receber...

     Pena que meus dias em Berna estão contados, e não vou poder aproveitar da "fama" entre a turma de universitários... =D

domingo, 30 de março de 2008

O grande mochilão...

     Por ocasião dos acontecimentos descritos nos post anteriores, acabei saindo lucrando. Os planos iniciais eram trabalhar até Abril e depois pedir para sair para começar a viajar pelo mundo, mas pude fazer um remanejamento de datas. O contrato com a UPS, que era para durar até o final de Junho, teve seu fim antecipado para o final de Maio, de modo que, juntamente com as férias, eu terei 3 meses - Maio, Junho e Julho -, tempo mais que suficiente para fazer uma viagem "ousada".

     Já faz algum tempo que tenho planejado então essa "grande viagem". Já passou pela minha cabeça todo e qualquer lugar do mundo, e considerei cada fator antes de fazer meu roteiro: o preço, a época do ano, a dificuldade de voltar lá... Tudo. E, ao final de tanto tempo pesquisando, eis o que eu decidi:

     Para começar, decidi que não gastaria meus três meses na Europa. Terei muito tempo, dinheiro e oportunidade de viajar pela Europa quando voltar, ao final desse ano, para Bélgica. Então, viajaria pela Europa o máximo que conseguisse durante meus finais de semana. Dito e feito, desde o início do ano já estive em 9 países, mais de 20 cidades, em sua maioria a oeste da Suíça. E ainda tenho mais algum tempo para conhecer o Leste Europeu: a partir do dia 25 de Abril até o dia 12 de Maio, terei 17 dias para viajar por Berlim, Praga, Vienna, Bratislava e Budapeste.

     Dia 16 de Maio encerro minhas atividades na UPS e saio, finalmente, para Estocolmo. Viajo então para Tallinn (Estônia), Helsinki, e, finalmente, para St. Petersburgo. Fico por lá uns 5 dias, e parto então para Moscow, para ficar uma semana. Até aí, tudo normal, né? Mas até aí, ainda é dia 7 de Junho, e ainda tenho muito tempo sobrando. Prepare-se então que agora a viagem começa a ficar interessante.

     Dia 8 de Junho pego o trem em Moscow, e começo minha jornada pela ferrovia Trans-Siberiana, a maior ferrovia do mundo. Numa jornada de 12 dias, cruzarei toda a Sibéria, fazendo um pit-stop em Irkutsky, uma cidadezinha à beira do Lago Baikal, considerada a cidade mais bela da Sibéria. De lá, sigo para Ulan-Bator, na Mongólia, e fico por lá mais uns dias. Finalmente, após cruzar o deserto de Gobi, chego em Beijing, na China, ponto final da Trans-Siberiana.

     Dia 20 de Junho, estou na China. Hehehehe, já fico imaginando como deve ser lá, tanta gente, tanta confusão. Mas ainda tenho mais de um mês restando, então parto no dia 24 para a Índia, em Nova Delhi. Fico de 2 a 3 semanas na Índia, onde o roteiro eu ainda preciso decidir, e termino então minha jornada pelo mundo na Tailândia, conhecida como "paraíso na Terra", onde fico mais 2 a 3 semanas. Da Tailândia pego o avião no dia 28 de Julho para a Suíça, busco minhas malas e na manhã do dia 30 de Julho, parto de volta para o Brasil, levando comigo tantas histórias quanto eu conseguir recordar.

     Os vistos, primeira etapa do planejamento da viagem, já estão quase todos prontos. Passagens já estão pesquisadas, só falta comprar. Roteiro, já tenho em mente, mas falta ainda definir alguns detalhes. Para isso, tenho ainda o mês inteiro de Abril, que é quando a viagem vai ganhar uma cara mais definitiva. Enquanto isso, vou postando aqui todas as novidades.

     Esperam que tenham gostado da idéia. Estou ansioso para ouvir comentários com suas opiniões sobre a viagem, então fiquem a vontade, comentem!

Mais sobre o trabalho...

     Após contar um pouco do que é a UPS, vou explicar então agora o que eu faço exatamente na empresa.

     Como disse, a UPS SCS faz a distribuição de produtos acabados da empresa ao consumidor final. Só existe um porém nessa história. Para distribuir rapidamente o produto precisa estar disponível a priori, e para que esteja sempre disponível, é necessário armazenar toneladas e toneladas de produtos em um Centro de Distribuição. Assim como o transporte, há alguns anos atrás, cada empresa possuía seu próprio armazém para os produtos. Mas, com o serviço terceirizado da UPS, houve também a oportunidade de centralizar o armazenamento, de modo que todas as empresas estocassem seus produtos em um só armazém, facilitando assim a distribuição. Temos então um Centro de Distribuição Central, na Holanda, onde dezenas de empresas armazenam seus produtos acabados, e onde a UPS retira-os para distribuição sempre que há uma chamada. Tudo sob o nome de UPS.

     A inovação proporcionada foi absurda, e o sucesso foi estrondoso. Aos poucos, outras empresas na Europa começaram a oferecer serviços similares, e a promover concorrência. Mas a UPS veio denovo com mais uma super-novidade, oferecendo aos seus clientes um sistema de pós-vendas, e logo logo distanciou na frente denovo.

     Post-Sales, ou SPL (Spare Parts Logistics) é o ramo da empresa onde eu trabalho. Basicamente, o que fazemos é o seguinte: você compra um laptop Dell, o laptop é retirado do Centro de Distribuição da UPS e entregue na sua casa por um caminhão também da UPS. Até aí tudo ok. Você usa seu laptop todos os dias, se diverte, e tal e tal. Mas, eventualmente, um dia seu laptop quebra, dá pau. E nada que você tenta fazer consegue trazê-lo de volta à vida. É aqui que nós entramos em ação.

     Você liga para o suporte da Dell, fala com o técnico da Dell, que tenta de pedir pra reiniciar o computador, para dar CTRL+ALT+DEL, para iniciar em Modo de Segurança, e blá blá blá, todas essas coisas óbvias que você já havia tentado. Nada resolve. Aí ele fala: "o problema é com a placa mãe, vamos ter que trocá-la". O técnico da Dell entra então em contato com o Business Support Center da UPS, solicita uma placa-mãe, e pede que seja entregue na casa do cliente, juntamente com um técnico capacitado para fazer a troca do componente.

     Acontece que durante esse tempo o cliente não tem laptop, apesar de ter pagado para ter laptop 24h por dia. E a situação é ainda mais crítica se o produto não for um laptop, e sim uma máquina de xerox numa copiadora. Ou, pior ainda, se for uma máquina de hemodiálise num hospital. Já pensou? É por isso que esse serviço de substituição de componentes e reparos técnicos deve sempre ser feito em tempo recorde. Só para vocês terem uma idéia, atualmente a UPS consegue cobrir mais de 90% dos pedidos feitos dentro da Europa Ocidental em menos de 4 horas. Só 10% dos reparos leva mais de 4 horas.

     Mas como tudo é feito tão rapidamente? Simples. Espalhado poor toda a Europa (e África e Oriente Médio) existem armazéns menores, contendo somente peças importantes de substituição. Esses armazéns menores são chamados de FSL. E, além disso, em cada país existem dezenas e dezenas de PUDO (Pick-up Drop-off Location), que na maioria das vezes são escritórios normais de empresas, abertos 24 horas por dia, que possuem um contrato com a UPS que podem receber itens e armazená-los, desde que seja por um período curto. Dessa forma, sempre que necessário, um carro da UPS (ou às vezes até mesmo um táxi), vai ao FSL, pega a peça a substituir, pega o técnico de sobre-aviso, leva ambos à casa/escritório/loja/hospital do cliente, faz o que tem que ser feito, pega a parte danificada, e deixa no PUDO. No dia seguinte, alguém da UPS pega o item no PUDO e leva de volta ao FSL. Em algumas situações, o táxi pode até mesmo pegar a parte no FSL e levar ao PUDO, deixando lá para o próprio cliente ir buscar. Além disso, o FSL é sempre "recarregado" com itens a partir do Centro de Distribuição Central, o mesmo que eu descrevi anteriormente, e o PUDO é sempre "descarregado" com os itens danificados que são devolvidos, e levados para o Centro de Reparo de cada empresa.

     Como otimizar esse processo todo? Basta que tenhamos PUDOs e FSLs localizados de maneira mais estratégica possível, dentro de cada país. As localizações devem ser tais que o espaço disponível esteja sempre ocupado, o número de empresas utilizando-o seja máximo, o custo de administração e pessoal seja mínimo, e a distância percorrida entre FSL-PUDO-Consumidor seja a menor possível. Para isso, é necessário muito estudo e gente boa trabalhando, e as pessoas que fazem isso trabalham do meu lado.

     Outro trabalho do meu departamento é o seguinte. Uma nova empresa quer começar a utilizar esse sistema fenomenal de pós-vendas da UPS. Para isso, ela entra em contato com a UPS, informa onde quer seu Centro de Distribuição, qual o volume que deverá ser transportado mensalmente, onde ficam seus consumidores finais, e quais suas exigências de tempo máximo de entrega dos produtos. Baseando-se nesses dados, o time de Solutions deve formular uma solução ótima para a empresa, dizendo quais os FSLs devem ser usados, e quais os PUDOs devem ser usados, de modo a garantir que o tempo máximo de entrega não seja ultrapassado. As pessoas que fazem isso também trabalham do meu lado, no meu departamento.

     Mas, tudo isso custa um preço, não é? E o time de Solutions, aos dizer qual a solução ótima em termos de quais localidades usar, diz também quanto custa tudo aquilo para a empresa. Mas de onde vem esse preço??? É exatamente aí que eu entro!!!

     O que eu tenho feito na empresa desde Novembro é criar um sistema de precificação desses serviços, baseando-se nos nossos custos. Qualquer preço de quaquer produto no mercado é sempre baseado em seu custo. Num restaurante, por exemplo, a comida é vendida por um preço proporcional ao seu custo, acrescentando uma margem de lucro. Numa loja, a mesma coisa acontece. O vendedor compra o produto e vende por um preço proporcional, acrescentando uma margem de lucro. Na UPS não é diferente.

     Então, para fornecer um preço à empresa, precisamos saber exatamente TODOS os nossos custos extras quando essa empresa passar a utilizar nossos serviços. Por exemplo, precisaremos de mais espaço nos FSLs, o volume nos PUDOs será maior, precisaremos pagar o transporte dos produtos do Centro de Distribuição para o FSL, precisamos pagar o Business Suport Center... Tudo isso tem um custo, e tudo é variável conforme as exigências da empresa. E, baseado nas exigências dessa empresa, preciso calcular o custo da forma mais acurada possível, para que, ao final, o preço seja o mais baixo possível (para ser competitivo no mercado), mas também não seja tão baixo a ponto de não dar lucro (ou do lucro ser muito pequeno).

     Pronto, é isso. Espero que tenha sido claro o bastante, e que todos entendam exatamente o meu trabalho de agora para frente. Posso dizer que estou gostando muito do que estou fazendo, e é bem desafiador também. E gosto de sentir que o projeto tem uma importância extrema na empresa, me faz querer fazer tudo com qualidade para que os resultados sejam perceptíveis. E parece que eles estão bem perceptíveis, já que tenho recebido inúmeros elogios dos gerentes da empresa sobre o meu trabalho. =D

UPS e "a notícia"

     Já fiz um post sobre o meu trabalho, mas pretendo agora explicar um pouco mais sobre o que eu faço específicamente, e contar algumas novidades (não tão novidades assim mais) na empresa que podem ser extremamente importantes para o meu futuro.

     UPS, a maior empresa de distribuição do mundo, compra em 2004 a gigante "Menlo Worldwide Forwarding", e entra assim no mercado de transporte pesado. Abre portas então para prestação de serviços de transporte de produtos acabados para empresas, e o ramo que cuida dessa área é chamado UPS Supply Chain Solutions. Desde então, os dois segmentos seguem como se fossem duas empresas separadas, e até mesmo os escritórios centrais são separados, tornando a UPS SCS o mais independente possível.

     Enquanto a área de atuação da UPS é o transporte particular de cartas e produtos (tipo um correio super otimizado, que faz entregas nacionais ou internacionais, em tempo mínimo, qualidade máxima, permitindo serviços de rastreio via internet e coisas do tipo), a UPS SCS presta serviços a empresas terceiras. É simples. Toda empresa que fabrica produtos precisa revendê-los. O procedimento antigo de revenda era baseado no consumidor se deslocar até a loja da empresa, escolher seu produto, pagar, e levá-lo para casa. Hoje em dia é diferente, o consumidor escolhe e paga o produto pela internet, e recebe o produto em casa.

     Mas quem entrega o produto na casa do consumidor, afinal de contas? Quando esse formato começou a aparecer, quem entregava era a própria empresa. Cada empresa possuia ums serviço de entrega individual, que entregava o produto escolhido na casa do consumidor final. Mas a entrega era extremamente cara e ineficiente. Imagine, por exemplo, um consumidor do Oriente Médio fazendo uma encomenda de um produto de uma empresa inglesa. Pior ainda, imagine que ele é o único consumidor encomendando um produto desta empresa, e a empresa tem um prazo máximo de entrega. Ou seja, vai sair um caminhão da Inglaterra em direção ao Oriente Médio, carregando um só produto, para o pobre do consumidor. Digo pobre porque é provavelmente como ele vai ficar se solicitar um serviço desse tipo.

     Mas aí vem a UPS SCS, com uma solução genial. Afinal de contas, ela tem 100 anos de experiência em transporte de encomendas, sempre com rapidez e qualidade, via terra, mar ou ar. Ela pergunta à empresa: que tal se eu fizer as entregas de seus produtos para você, oferecendo um preço muito mais baixo do que você paga atualmente, e uma qualidade muito maior, de modo que você possa oferecer também ao seu cliente um preço mais baixo na entrega? É claro que é um bom negócio, e é por isso que a UPS SCS cresceu tanto e tão rapidamente.

     O sucesso da SCS foi tremendo. Em 2006, o lucro gerado pela UPS SCS já era tão grande quanto o da UPS, a empresa continuava crescendo num ritmo assustador. Mas havia algo de errado. Tanta independência entre as duas empresas era algo ruim, considerando-se que era extremamente complicado para a UPS SCS utilizar-se dos veículos da UPS. A UPS cobrava da UPS SCS normalmente, como se ela fosse um cliente qualquer (oferecendo um preço bem mais baixo, obviamente), e, além disso, não havia compartilhamento de dados sobre rotas, tempos, etc. Cada empresa possuia suas próprias rotas a seguir, seus próprios veículos, seu próprio escritório central... Tudo separado.

     Em 2007 a empresa fez 100 anos de existência, e, na ocasião da celebração, foi anunciado que UPS SCS e UPS voltariam a ser uma só empresa. Aos poucos, tudo que era então separado passaria a ser junto, e até mesmo a marca UPS Supply Chain Solutions desapareceria com o tempo. Mas, claro, tudo a seu devido tempo.

     Falando de Europa, temos o escritório central da UPS, que coordena toda EMEA (Europa, Oriente Médio e África) localizado em Bruxelas, devido a ótima localizacão da cidade na Europa. Fica exatamente no centro, facilitando transportes de produtos em tempo mínimo. Ao mesmo tempo, temos o escritório central da UPS SCS localizado na Suíça, que é um ótimo país para empresas se instalarem devido aos baixos impostos. Acontece que, desde o anúncio do realinhamento das duas empresas em 2007, a tensão é grande. Todos os trabalhadores dos dois escritórios sabiam que não continuariam separados por muito tempo. Restava saber qual dos dois escritórios se mudaria, e quando.

     A resposta veio em Novembro, do ano passado. Eu só estava na empresa há duas semanas, e não tinha a menor idéia do quão grande era aquela notícia. Todos da empresa se reuniram, e o chefe dos chefes da UPS EMEA veio nos falar que, após muita análise, havia sido decidido que UPS SCS seria realocada no mesmo escritório da UPS, em Bruxelas. O escritório na Suíça seria fechado no final de Maio de 2008, e, até Fevereiro, a todos da empresa seriam ofeceridos novos contratos e oportunidades de emprego na Bélgica. Todos precisariam analisar a proposta e decidir se gostariam ou não de se mudar para Bélgica.

     Lembro do quão feliz fiquei nesse dia, ao mesmo tempo em que todos os outros morriam de tanta tristeza. Na verdade, não tinha a menor idéia do que aconteceria comigo, mas sabia que, na melhor das hipóteses, seria transferido para Bélgica, e conheceria outro país de graça! Na pior das hipóteses, terminaria meu intercâmbio antes, em Maio, ao invés de esperar até o final de Junho, que era o que o meu contrato diria. Qualquer uma das opções era boa, e esse era o motivo de eu estar rindo a toa.

     Minha sorte estava mesmo em alta. Graças ao meu trabalho bem feito durante as primeiras semanas, tinha passado uma ótima impressão para os meus gerentes, e, por isso, pouco tempo depois veio a boa notícia. Descobri que mesmo minha melhor hipótese não era tão boa quando a oferta que eles me fizeram. Fui oferecido me mudar para Bélgica, como todos os outros, mas não como estagiário, e sim como empregado full-time! E, de quebra, ainda receberia um mega-pacote de recompensas para me ajudar na mudança (que para muita gente é algo super complicado, mas para mim era só felicidade!). O pacote incuiria 4 meses de salários extras (!), mudanças, visitas à Bruxelas para procurar moradia, hospegando em hotel, cursos de francês particulares, e muitas outras coisas. Quer mais o que???

     Acontece que mudar com a empresa nessa situação, com tantos benefícios, viria com um preço. Dois anos de débito, durante os quais não poderia sair da empresa a não ser que devolvesse proporcionalmente os benefícios que eu recebesse. E, para mim, nessa fase da minha vida, fazer esse tipo de compromisso é algo extremamente complicado. Expliquei para o meu chefe que não podia dar a resposta tão de imediato, e que queria um tempo para pensar. Passado um tempo, conversamos denovo e conseguimos chegar a um acordo ainda melhor, na minha opinião. Terminaria meu estágio antes do previsto, esse semestre, depois voltaria para o Brasil, faria o meu semestre do ITA, normalmente, para, no final de 2008, voltar novamente para UPS. Mas, dessa vez, direto para Bruxelas, e já com um contrato de emprego full-time. E ainda receberia uma parte do pacote de realocação, para me ajudar com as despesas de mudança! E o melhor de tudo, sem compromisso com a empresa depois de eu me formar!!!

     Não podia esperar nada melhor, estou extremamente satisfeito com tudo. Além de tudo, ainda vou ter um tempo maior para pensar sobre minha vida e meu futuro, e preciso dar a minha resposta somente depois do meio do ano, por volta de Agosto. Até lá, posso viajar, divertir, e pensar muito sobre o que eu quero fazer na minha vida e nos meus próximos anos.

Ócio

     Finalmente, um fim-de-semana em casa. Sem nada para fazer, sem fazer nada. Já é noite de domingo, eu olho para trás, penso o que eu fiz no fim-de-semana, e vejo que não fiz nada. Sinto orgulho.

"E vós, para quem a vida é trabalho e inquietação furiosos - não estais por demais cansados de viver? Não estais prontos para a pregação da morte? Todos vós para quem o trabalho furioso é coisa querida - e também tudo o que seja rápido, novo e diferente - vós achais por demais pesado suportar a vós mesmos; vossa atividade é uma fuga, um desejo de vos esquecerdes de vós mesmos. Não tendes conteúdo suficiente em vós mesmos para esperar - e nem mesmo para o ócio".

Nietzsche

Museumsnacht

     Sexta-feira a noite, finalmente, chegando do trabalho... Fazer o quê? Liguei para um amigo da aiesec, Jeroen, convidando para sair ou fazer qualquer coisa que não ficar em casa e dormir. Sem resultado, chamou chamou e não atendeu. Droga, vou pra casa então.

     No caminho, porém, meu telefone toca, e é justamente o Jeroen: "Sorry, I couldn't answer you because I was in the museum". Museu??? O que? Como assim, hoje é sexta feira, e já são sete e meia da noite. "Yes, don't you know? Today is Museumnacht in Bern".

     Após uma breve explicação, entendi o que estava acontecendo. Era noite do museu em Berna: todos os 34 museus da cidade abertos em caráter excepcional, das 18h às 02h da madrugada. Isso mesmo, duas da madrugada. Pensei: caramba, isso é inacreditável, só na Suíça mesmo para fazerem um evento desse tipo, e ainda mais numa sexta-feira a noite. Mas bom, duvido que vai ter alguém nesse negócio, todo mundo vai estar em casa, se preparando para curtir a noite.

     Queimei a língua. Ainda no telefone, meu amigo disse: "Estamos na Helvetiaplatz nesse exato momento, vamos entrar no Museu da Comunicação. Não quer se juntar a nós?". Hahaha, não iria por nada nesse mundo, hoje é sexta-feira, e é dia de celebrar, não de museu. Mas, naquele exato momento, meu Tram que me leva para casa todos os dias, anunciava: "Nächste Halt: Helvetiaplatz". Ah, quer saber, já estou aqui mesmo, vou descer e dar um "oi" pro pessoal.

     Ao descer do tram, a surpresa. A praça estava "entupida", transbordando gente. Aí vocês vão pensar: "é noite de museu, só deve ter vovô lá"... Que nada, pouquíssimos velhos, a grande maioria eram jovens, nos seus 20 e poucos a 30 e poucos. Sem dúvida nenhuma, algo bizarro para a minha cabeça. O grande programa de sexta-feira a noite era visitar museus. E não era um eventozinho qualquer, era O Evento! Não tinha visto a cidade mobilizada para um evento assim desde a Onionmarket, em Novembro do ano passado.

     Encontrei Jeroen, que estava com amigos da Aiesec. Batemos um papo, perguntei direito como era aquele evento e ele me explicou tudo. Paga-se 25 francos e tem-se direito de visitar os 34 museus da cidade, durante 8 horas, com transporte público entre eles gratuitamente, e com direito a um Nightclub ao final. Hã? Ir para balada depois de visitar museus era uma combinação meio estranha, mas, confesso que o encerramento do evento me chamou atenção e me convenceu a arriscar.

     Comprei meu ingresso (aiii, 25cão!) e comecei minha jornada pelos museus de Berna. Fiquei positivamente surpreso com o evento, e digo que após a primeira hora já estava adorando. Eu adoro visitar museus, sempre o faço em minhas viagens, mas visitar museus naquela situação era algo muito especial. A grande maioria era gente nova, os museus todos tinham exposições especiais para o evento, cada um com um assunto diferente do outro (pouquíssimos eram do tipo convencional de arte e pintura), decorações especiais, todo mundo muito vivo e interessado, e ainda sempre rolava uma cervejinha entre um museu e outro. A cidade estava transbordando cultura!

     Destaque especial para o Conservatório de Música de Berna, que estava também aberto em caráter excepcional e foi palco de apresentações dos principais músicos da cidade, desde música clássica e ópera, até jazz e popular.

     E foi assim que passei minha sexta-feira. A baladinha no final foi relativamente boa, mas confesso que não foi nem de perto a melhor parte da noite. E, mais uma vez, volto para casa surpreso com essa cultura da suíça, na qual os jovens curtem a sexta-feira a noite saindo com os amigos para o museu ao invés de sair para o bar.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Direto do Nokia E90

Aloprei...

Resolvi gastar um pouco mais do que normalmente se gasta e comprei um celular um pouco melhor do que normalmente se compra. Pra que? "Celular e para fazer e receber ligacoes, e pronto", vao dizer. Eu concordaria com a afirmacao se ela fosse feita no seculo passado, ou mesmo nos ultimos anos. Mas hoje em dia e diferente, e a tecnologia nao tem limites... E eu, como um bom fa de novidades tecnologicas, comprei um celular-laptop.

Sim, e isso mesmo. O celular tem todas as funcoes de um celular convencional, acrescidas de um mini-laptop. Com teclado QWERT, word, excel, powerpoint, internet wireless e tudo! E ainda inclui todos esses recursos que acompanham os celulares modernos de hoje em dia: GPS, bluetooth, camera de 3 megapixeils com flash... tem de tudo mesmo.

O nome do celular e Nokia E90, o top dos tops da Nokia. Consegui uma barganha pelo ebay, e acabei levando a maquina pelo preco de um celular (dos bons) normal!

E para provar a eficiencia do celular, estou postando esse post inteiramente pelo celular, usando editor de texto word e conectando pela internet wireless... Pouco foda, ne?

terça-feira, 25 de março de 2008

Florença

     Estar no lugar certo na hora certa. Apesar de o clima não ter melhorado, e de inúmeros outros problemas terem acontecido nessa viagem, ainda assim considero que tive sorte de estar em Florença nesses dois últimos dias. O motivo é simples, vou explicar...

     Florença começou um pouco mais tarde do que eu havia previsto, uma vez que abri mão de viajar de manhã para assistir ao Papa em Roma. Viajei então logo após a missa, no trem das 13h, e cheguei em Florença de tardinha. Direto ao albergue, tive a desagradável surpresa de ter a minha reserva arbitrariamente cancelada: o albergue havia feito overbooking para a Páscoa, e eu havia sido um dos escolhidos para perder o quarto.

     Claro, não ficaria barato assim. Bati o pé que a obrigação de me conseguir hospedagem (sem pagar mais por isso, claro), era deles, mas infelizmente TODOS os albergues de Florença estavam lotados na ocasião. A solução que eu encontrei foi simples: não pagaria a minha reserva e dormiria no sofá do albergue. Dito e feito! Hospedagem gratuita, com direito a internet e café da manhã.

     O problema foi que esse rolo todo acabou com minha tarde, e quando resolvemos o problema já estava anoitecendo. Ou seja, um dia a menos. Aproveitei a noite para comer pizza (sim, pela trocentésima vez), que por sinal foi a melhor pizza que eu já comi. Fantástica! E o melhor de tudo, apenas 7 euros, hehe.

     Aproveitei então para dormir mais cedo, já que no dia seguinte seria obrigado a acordar logo que a recepção do albergue abrisse. Tirei proveito da situação e, logo que acordei, fui direto à Galeria Academia, um dos dois museus mais famosos de Florença (e de todo o mundo, quando se trata de arte renascentista). Enfrentei uma fila minúscula (para os padrões de Roma), e, depois de menos de meia hora já estava dentro!

     Museu legalzinho. Teria adorado se arte renascentista fosse a minha área, mas não é. Então foi só legalzinho mesmo. Mas, a grande exceção foi a estátua de Davi, de Michelangello. Essa sim foi de tirar o fôlego! Simplesmente fenomenal, uma estátua de mais de 3 metros de altura, tão perfeita que parece real. A riqueza de detalhes é algo absurdo, é possível ver as veias na mão de Davi, a pontinha das unhas, cada músculo, tudo é inacreditavelmente perfeito.

Estátua de David, de Michelangello

     Terminei a visita ao museu na hora do almoço, e após um Kebab, logo voltei ao albergue. Estava lá, usando a internet tranquilamente quando tive mais uma desagradável surpresa. O dono apareceu, perguntou quando era o meu check-out, e sabendo que eu não ficaria mais uma noite no albergue, resolveu me pedir para me retirar. Achei aquilo o maior absurdo do mundo, ainda mais depois do que aconteceu na noite anterior, mas depois de discutir e bater boca, xingar até não poder mais, resolvi que iria sair mesmo daquele lixo, ainda que ele tivesse mudado o discurso e autorizado que eu ficasse mais lá.

     Saí na hora certa. Resolvi que ainda não era hora de desistir de Florença e, debaixo de chuva, parti em direção ao Il Duomo, uma das maiores catedrais do mundo. Fiquei surpreso quando entrei lá, o lugar era tão grande que faz a Catedral de Notre-Dame parecer uma capelinha (apesar de que a beleza do lugar não se compara com a catedral francesa). Achei engraçado, já que a Catedral de Notre-Dame era, até o momento, disparado a maior catedral que já tinha visto... Mas não tem limite mesmo para o que o dinheiro do dízimo pode fazer.

     Uma construção de tamanha magnitude não podia deixar de ter uma cúpula, e essa tinha uma com nada menos que 82 metros de altura. Pagando-se 6 euros, pode-se subir os 414 degraus e ter uma visão da cidade toda, então, após relutar um pouco (a grana tá no finalzinho), resolvi que enfrentaria a última fila gigantesca da viagem e subiria até o topo. O motivo maior para eu mudar de idéia foi que a chuva havia dado uma trégua, e eu poderia esperar na fila sem me encharcar denovo.

     E foi aí que o fato mais bizarro da viagem aconteceu...

     Após pouco mais de uma hora na fila, comecei a subir os degraus. Após alguns minutos, uma primeira vista da cidade. Vista bonita, mas uma má notícia: a chuva havia voltado, e não estava fraca não.

     Mais uns minutinhos subindo degrau a degrau, junto com uma multidão, e mais uma janelinha. Sim, a chuva havia piorado, e o céu estava cinza escuro. Estava realmente medonho, e nessa hora eu só pensava em como estariam os coitados que estavam ainda na fila.

     O último lance de escadas estava chegando, e quando faltavam pouco mais que dez degraus, um segurança me solicitou que parasse, para que o pessoal que estava lá em cima descesse. Ele disse: dez sobem, dez descem. Estava então esperando os dez descerem, e eu seria então o primeiro a subir ao topo. Teria sido assim, se não tivesse acontecido algo totalmente inesperado.

     De repente, do nada, ouvi uma explosão, algo que eu não consigo descrever de tão alto. Parecia uma bomba, e veio acompanhada de um clarão azul de cegar os olhos. A escada, que era onde eu estava piscou como um super-flash de máquina fotográfica, apesar de ser escura normalmente. E meu coração acelerou, minhas pernas tremeram.

     Pânico.

     Um tumulto começou. Gente gritando, um empurra-empurra para descer as escadas. O walkie-talkie do segurança começou a receber chamadas, perguntando o que diabos havia acontecido. O segurança, branco de medo, não sabia o que fazia, apenas gritava tentando conter o tumulto. Ninguém entendia nada, apenas morria de medo e gritava socorro.

     As luzes se apagaram.

     Logo desceu uma garota chorando horrores, dizendo que havia caído um relâmpago no centro da cúpula. Chorava e chorava, desesperada, e não sabia para onde fugia. O segurança perguntou se estavam todos bem, se alguém havia se ferido. Felizmente, parecia que todos estavam bem, apesar de completamente aflitos.

     As dezenas de pessoas que estavam no topo não sabiam o que faziam. Se empurravam para conseguir descer, mas não podiam, já que as luzes haviam se apagado. E era impossível descer aquelas escadas sem luz, aquilo ficava um breu total. Demorou cerca de meia hora até as pessoas começarem a se acalmar, e, com o auxílio de alguns seguranças que chegavam ao topo naquele momento, todos começaram a descer com o auxílio de algumas lanternas.

     Esperei a confusão toda passar e, sim, acreditem se quiser, eu subi lá em cima ainda. Subi sozinho, ninguém mais teve coragem, mas pude apreciar uma vista de toda Florença enquanto nevava, e foi realmente algo marcante. Confesso que meu coração estava a mil por hora, mas valeu a pena.

     Parei então para refletir sobre o que tinha acontecido, mas não pude concluir se eu havia tido sorte de ter presenciado esse acontecimento maluco, de camarote, ou se havia tido azar, por não ter tido a oportunidade de ver um relâmpago cair a um metro de distância de mim. Sorte ou azar, só sei que foi algo memorável, e tenho certeza de que não vou esquecer as feições de pânico no rosto de tanta gente, ou aquele clarão azul sobre a minha cabeça.

     Não vejo a hora de procurar na internet a notícia do acontecimento.

Vista da cúpula do Il Duomo

Roma, non basta una vita!

     Estar no lugar errado, na hora errada. Foi exatamente o que aconteceu comigo nessa viagem à Roma, que por sinal era para ser uma das mais fascinantes até o momento. A fascinante idéia de fazer uma viagem à Itália durante o feriado de Páscoa se mostrou um tanto quanto besta, especialmente considerando que o clima estava pra lá de ruim - chuva, chuva e mais chuva. Mas, de posse de um ticket para o trem-noturno comprado com tanta antecedência, por um preço de banana, nada seria motivo para me fazer desistir da viagem.

     A cidade é maravilhosa, no entanto. De acordo com o Lonely Planet, "possivelmente a única capital européia com mais ruínas do que cocô de cachorro". E é verdade, andar pela cidade, principalmente na região ao redor do Coliseu, realmente te faz sentir diferente, e te faz imaginar como seria a vida na Roma Antiga. Ruínas aqui, mais ruínas ali, e, se você prestar bastante atenção, ainda pode encontrar mais ruínas lá, e aos poucos a gente vai remontando a história e entendendo melhor sobre todos aqueles lugares que ouvimos falar em filmes ou no colégio mas que nunca entendemos direito.

     O início da aventura foi bem legal. O trem noturno que ia de Berna a Roma era bem interessante: basicamente, o trem era um dormitório, com camas e mais camas para o pessoal passar a noite dormindo, e chegar em Roma às 9 da manhã seguinte. Fiquei num vagão com 6 camas, agrupadas como se fossem 2 treliches, e pelo menos na minha opinião, a viagem foi bastante confortável: pude dormir do início ao fim, acordando pouquíssimas vezes durante a noite. E por volta das 8 da manhã, ainda fui surpreendido por um serviço de "quarto" servindo um café da manhã e recolhendo as roupas de cama. Show de bola.

Trem noturno de Berna à Roma

     O jogo começa a virar logo ao chegar em Roma. Buscando fazer economias (já que tenho gastado horrores nessas minhas viagens de fim-de-semana), reservei um albergue bem afastado da cidade, que tinha um preço mais razoável. Acontece que, embora reservado como um albergue, o lugar era mais um "camping ground" com uns dormitórios que um albergue propriamente dito, o que não seria problema algum se não estivesse caindo um pé d'água e tudo não tivesse virado uma lama só. No fim das contas, 10 euros por noite foi mais do que um preço caro para um lugar onde eu passei frio até durante a noite, e onde os chuveiros nem tinham água quente direito.

     O ponto positivo foi que eu conheci uma galerinha massa, com quem fui bater perna pela cidade já no primeiro dia. Começamos com o Coliseu, e de lá fizemos um percurso passando pelos principais monumentos: Arco de Constantine, Fórum Romano, Tempio di Antonino e Faustina, Basilica Aemilia, Lapis Niger, Arco di Settimo Severo, Tempio di Saturno, Tomb of the Unknown Soldier, e outros vários lugares que eu nem sei o nome. Fomos então ao Pantheon, esplêndido monumento que me impressionou bastante, e então à Fontana di Trevi, onde pude jogar uma moeda sobre meu ombro e, como diz a lenda, garantir o meu retorno à Roma.

Coliseu

Monumento do Soldado Anônimo

Pantheon

Fontana de Trevi

     Após um pit-stop para uma pizza e um gelado, fomos ao Castel Sant'Angelo e seguimos ainda um pouco mais a oeste, chegando finalmente ao Vaticano. Não fiquei muito tempo lá por dois motivos: primeiro, porque eu voltaria ao Vaticano na manhã segunte, e segundo porque a chuva a esta hora já começava a atrapalhar os meus planos.

Castel Sant'Angelo

Praça de São Pedro, no Vaticano

     De volta ao "camping ground", uma cerveja com os novos amigos, e cama. Dormir cedo para acordar cedo, e chegar o quanto antes no Museu do Vaticano, famoso pelas filas quilométricas, e conseguir entrar antes do meio dia. Ótimo, até aí. No dia seguinte, consegui chegar à fila do museu às 8h30, e esse foi o início da jornada. Debaixo de chuva forte, enfrentei fila por 4 horas - sim, 4 horas! - , só conseguindo entrar no museu quase 1 hora da tarde. Estava ensopado, cabelos, jaqueta, calça e, principalmente, os pés. Já estava criando bolha nos pés, de tanto andar na chuva com o pé molhado. Durante essas longas 4 horas, só o que passava pela minha cabeça era como eu pude ter sido tão ingênuo de marcar uma viagem à Roma num feriado como Páscoa, e ainda por cima com um clima tão ruim!

Fila para o Museu Vaticano

Finalmente, entrada do Museu Vaticano

     O museu ajudou um pouco a recuperar meu humor. É um ótimo museu, dá pra passar horas lá sem ver o tempo passar, muita coisa interessante, muita arte renascentista. Destaque especial para a Capela Sistina, ao final, com incríveis obras de Michelângelo.

     Após um bom almoço típico, os planos seriam visitar a Basílica de São Pedro. Chegando lá, para a minha surpresa, uma fila tão grande que contornava aquela praça oval do Vaticano, a Praça de São Pedro. Fiquei na fila por mais uma hora e meia, debaixo de chuva forte, sempre imaginando por que é que o São Pedro não colaborava um pouco conosco, já que queríamos visitar justamente seus aposentos. Nada, ele não ouviu minhas preces, e a chuva continuou. Já estava começando a anoitecer quando resolvi perguntar ao policial por que a fila não andava. A resposta foi: esta não é a fila para visitar a Basílica, esta é uma fila para assistir à missa de Páscoa, e só entra quem tiver o ingresso.

     AEEEEE! Maravilha!!!!! Puto da vida, dei meia volta e tomei o caminho de volta ao camping, disposto a fugir logo da cidade na manhã do dia seguinte e seguir a Florença. E assim seria, se não tivesse mudado meus planos no último minuto. A caminho da estação de trem, ouvi um pessoal comentando sobre a missa de Páscoa que aconteceria no Vaticano dentro de uma hora, e coisas do tipo: "Não me importa a chuva, eu só quero é ver o Papa!", ou "eu quero poder olhar aquelas fotos do Vaticano lotado, transbordando gente, e pensar: eu estava lá!". Bem, puxei papo com eles e, meia hora depois, estava eu lá no meio da multidão, aguardando debaixo de chuva a hora em que o Papa apareceria ao público. Pude ver o Papa, ao vivo e pelos telões, assisti metade da missa, e quando eu estava praticamente afogando com tanta água nas minhas roupas, decidi dar meia volta e seguir viagem.

Missa de Páscoa, com a presença do Papa

     E foi assim que terminou a aventura pela cidade que, por séculos, foi o centro do mundo ocidental. Passei minhas horas no trem para Florença refletindo se o dilúvio de Noé poderia ter acontecido em Roma, e se a Basílica e Praça de São Pedro são realmente de São Pedro, ou, se são, se ele estava só de sacanagem com a gente. Abandonei a cidade então sem ter tido a oportunidade de conhecer lugares famosos como a Basílica de São Pedro, mas com a tranquilidade de ter arremessado a moeda na Fontana de Trevi, garantindo então que eu ainda volto um dia.