terça-feira, 25 de março de 2008

Roma, non basta una vita!

     Estar no lugar errado, na hora errada. Foi exatamente o que aconteceu comigo nessa viagem à Roma, que por sinal era para ser uma das mais fascinantes até o momento. A fascinante idéia de fazer uma viagem à Itália durante o feriado de Páscoa se mostrou um tanto quanto besta, especialmente considerando que o clima estava pra lá de ruim - chuva, chuva e mais chuva. Mas, de posse de um ticket para o trem-noturno comprado com tanta antecedência, por um preço de banana, nada seria motivo para me fazer desistir da viagem.

     A cidade é maravilhosa, no entanto. De acordo com o Lonely Planet, "possivelmente a única capital européia com mais ruínas do que cocô de cachorro". E é verdade, andar pela cidade, principalmente na região ao redor do Coliseu, realmente te faz sentir diferente, e te faz imaginar como seria a vida na Roma Antiga. Ruínas aqui, mais ruínas ali, e, se você prestar bastante atenção, ainda pode encontrar mais ruínas lá, e aos poucos a gente vai remontando a história e entendendo melhor sobre todos aqueles lugares que ouvimos falar em filmes ou no colégio mas que nunca entendemos direito.

     O início da aventura foi bem legal. O trem noturno que ia de Berna a Roma era bem interessante: basicamente, o trem era um dormitório, com camas e mais camas para o pessoal passar a noite dormindo, e chegar em Roma às 9 da manhã seguinte. Fiquei num vagão com 6 camas, agrupadas como se fossem 2 treliches, e pelo menos na minha opinião, a viagem foi bastante confortável: pude dormir do início ao fim, acordando pouquíssimas vezes durante a noite. E por volta das 8 da manhã, ainda fui surpreendido por um serviço de "quarto" servindo um café da manhã e recolhendo as roupas de cama. Show de bola.

Trem noturno de Berna à Roma

     O jogo começa a virar logo ao chegar em Roma. Buscando fazer economias (já que tenho gastado horrores nessas minhas viagens de fim-de-semana), reservei um albergue bem afastado da cidade, que tinha um preço mais razoável. Acontece que, embora reservado como um albergue, o lugar era mais um "camping ground" com uns dormitórios que um albergue propriamente dito, o que não seria problema algum se não estivesse caindo um pé d'água e tudo não tivesse virado uma lama só. No fim das contas, 10 euros por noite foi mais do que um preço caro para um lugar onde eu passei frio até durante a noite, e onde os chuveiros nem tinham água quente direito.

     O ponto positivo foi que eu conheci uma galerinha massa, com quem fui bater perna pela cidade já no primeiro dia. Começamos com o Coliseu, e de lá fizemos um percurso passando pelos principais monumentos: Arco de Constantine, Fórum Romano, Tempio di Antonino e Faustina, Basilica Aemilia, Lapis Niger, Arco di Settimo Severo, Tempio di Saturno, Tomb of the Unknown Soldier, e outros vários lugares que eu nem sei o nome. Fomos então ao Pantheon, esplêndido monumento que me impressionou bastante, e então à Fontana di Trevi, onde pude jogar uma moeda sobre meu ombro e, como diz a lenda, garantir o meu retorno à Roma.

Coliseu

Monumento do Soldado Anônimo

Pantheon

Fontana de Trevi

     Após um pit-stop para uma pizza e um gelado, fomos ao Castel Sant'Angelo e seguimos ainda um pouco mais a oeste, chegando finalmente ao Vaticano. Não fiquei muito tempo lá por dois motivos: primeiro, porque eu voltaria ao Vaticano na manhã segunte, e segundo porque a chuva a esta hora já começava a atrapalhar os meus planos.

Castel Sant'Angelo

Praça de São Pedro, no Vaticano

     De volta ao "camping ground", uma cerveja com os novos amigos, e cama. Dormir cedo para acordar cedo, e chegar o quanto antes no Museu do Vaticano, famoso pelas filas quilométricas, e conseguir entrar antes do meio dia. Ótimo, até aí. No dia seguinte, consegui chegar à fila do museu às 8h30, e esse foi o início da jornada. Debaixo de chuva forte, enfrentei fila por 4 horas - sim, 4 horas! - , só conseguindo entrar no museu quase 1 hora da tarde. Estava ensopado, cabelos, jaqueta, calça e, principalmente, os pés. Já estava criando bolha nos pés, de tanto andar na chuva com o pé molhado. Durante essas longas 4 horas, só o que passava pela minha cabeça era como eu pude ter sido tão ingênuo de marcar uma viagem à Roma num feriado como Páscoa, e ainda por cima com um clima tão ruim!

Fila para o Museu Vaticano

Finalmente, entrada do Museu Vaticano

     O museu ajudou um pouco a recuperar meu humor. É um ótimo museu, dá pra passar horas lá sem ver o tempo passar, muita coisa interessante, muita arte renascentista. Destaque especial para a Capela Sistina, ao final, com incríveis obras de Michelângelo.

     Após um bom almoço típico, os planos seriam visitar a Basílica de São Pedro. Chegando lá, para a minha surpresa, uma fila tão grande que contornava aquela praça oval do Vaticano, a Praça de São Pedro. Fiquei na fila por mais uma hora e meia, debaixo de chuva forte, sempre imaginando por que é que o São Pedro não colaborava um pouco conosco, já que queríamos visitar justamente seus aposentos. Nada, ele não ouviu minhas preces, e a chuva continuou. Já estava começando a anoitecer quando resolvi perguntar ao policial por que a fila não andava. A resposta foi: esta não é a fila para visitar a Basílica, esta é uma fila para assistir à missa de Páscoa, e só entra quem tiver o ingresso.

     AEEEEE! Maravilha!!!!! Puto da vida, dei meia volta e tomei o caminho de volta ao camping, disposto a fugir logo da cidade na manhã do dia seguinte e seguir a Florença. E assim seria, se não tivesse mudado meus planos no último minuto. A caminho da estação de trem, ouvi um pessoal comentando sobre a missa de Páscoa que aconteceria no Vaticano dentro de uma hora, e coisas do tipo: "Não me importa a chuva, eu só quero é ver o Papa!", ou "eu quero poder olhar aquelas fotos do Vaticano lotado, transbordando gente, e pensar: eu estava lá!". Bem, puxei papo com eles e, meia hora depois, estava eu lá no meio da multidão, aguardando debaixo de chuva a hora em que o Papa apareceria ao público. Pude ver o Papa, ao vivo e pelos telões, assisti metade da missa, e quando eu estava praticamente afogando com tanta água nas minhas roupas, decidi dar meia volta e seguir viagem.

Missa de Páscoa, com a presença do Papa

     E foi assim que terminou a aventura pela cidade que, por séculos, foi o centro do mundo ocidental. Passei minhas horas no trem para Florença refletindo se o dilúvio de Noé poderia ter acontecido em Roma, e se a Basílica e Praça de São Pedro são realmente de São Pedro, ou, se são, se ele estava só de sacanagem com a gente. Abandonei a cidade então sem ter tido a oportunidade de conhecer lugares famosos como a Basílica de São Pedro, mas com a tranquilidade de ter arremessado a moeda na Fontana de Trevi, garantindo então que eu ainda volto um dia.

Um comentário:

dazzler disse...

hahaha mto engraçado cara... bela observação sobre noé e são pedro...
Cara, a gente pegou night trains exatamente como este que vc descreveu - Com a diferenca de ser um trem ex-comunista bem menos arrumadinho hehe...
Outra observação: tomou um 'gelado'? ahhh, se vc voltar pra cá falando 'pois' vai apanhar!