domingo, 30 de março de 2008

O grande mochilão...

     Por ocasião dos acontecimentos descritos nos post anteriores, acabei saindo lucrando. Os planos iniciais eram trabalhar até Abril e depois pedir para sair para começar a viajar pelo mundo, mas pude fazer um remanejamento de datas. O contrato com a UPS, que era para durar até o final de Junho, teve seu fim antecipado para o final de Maio, de modo que, juntamente com as férias, eu terei 3 meses - Maio, Junho e Julho -, tempo mais que suficiente para fazer uma viagem "ousada".

     Já faz algum tempo que tenho planejado então essa "grande viagem". Já passou pela minha cabeça todo e qualquer lugar do mundo, e considerei cada fator antes de fazer meu roteiro: o preço, a época do ano, a dificuldade de voltar lá... Tudo. E, ao final de tanto tempo pesquisando, eis o que eu decidi:

     Para começar, decidi que não gastaria meus três meses na Europa. Terei muito tempo, dinheiro e oportunidade de viajar pela Europa quando voltar, ao final desse ano, para Bélgica. Então, viajaria pela Europa o máximo que conseguisse durante meus finais de semana. Dito e feito, desde o início do ano já estive em 9 países, mais de 20 cidades, em sua maioria a oeste da Suíça. E ainda tenho mais algum tempo para conhecer o Leste Europeu: a partir do dia 25 de Abril até o dia 12 de Maio, terei 17 dias para viajar por Berlim, Praga, Vienna, Bratislava e Budapeste.

     Dia 16 de Maio encerro minhas atividades na UPS e saio, finalmente, para Estocolmo. Viajo então para Tallinn (Estônia), Helsinki, e, finalmente, para St. Petersburgo. Fico por lá uns 5 dias, e parto então para Moscow, para ficar uma semana. Até aí, tudo normal, né? Mas até aí, ainda é dia 7 de Junho, e ainda tenho muito tempo sobrando. Prepare-se então que agora a viagem começa a ficar interessante.

     Dia 8 de Junho pego o trem em Moscow, e começo minha jornada pela ferrovia Trans-Siberiana, a maior ferrovia do mundo. Numa jornada de 12 dias, cruzarei toda a Sibéria, fazendo um pit-stop em Irkutsky, uma cidadezinha à beira do Lago Baikal, considerada a cidade mais bela da Sibéria. De lá, sigo para Ulan-Bator, na Mongólia, e fico por lá mais uns dias. Finalmente, após cruzar o deserto de Gobi, chego em Beijing, na China, ponto final da Trans-Siberiana.

     Dia 20 de Junho, estou na China. Hehehehe, já fico imaginando como deve ser lá, tanta gente, tanta confusão. Mas ainda tenho mais de um mês restando, então parto no dia 24 para a Índia, em Nova Delhi. Fico de 2 a 3 semanas na Índia, onde o roteiro eu ainda preciso decidir, e termino então minha jornada pelo mundo na Tailândia, conhecida como "paraíso na Terra", onde fico mais 2 a 3 semanas. Da Tailândia pego o avião no dia 28 de Julho para a Suíça, busco minhas malas e na manhã do dia 30 de Julho, parto de volta para o Brasil, levando comigo tantas histórias quanto eu conseguir recordar.

     Os vistos, primeira etapa do planejamento da viagem, já estão quase todos prontos. Passagens já estão pesquisadas, só falta comprar. Roteiro, já tenho em mente, mas falta ainda definir alguns detalhes. Para isso, tenho ainda o mês inteiro de Abril, que é quando a viagem vai ganhar uma cara mais definitiva. Enquanto isso, vou postando aqui todas as novidades.

     Esperam que tenham gostado da idéia. Estou ansioso para ouvir comentários com suas opiniões sobre a viagem, então fiquem a vontade, comentem!

Mais sobre o trabalho...

     Após contar um pouco do que é a UPS, vou explicar então agora o que eu faço exatamente na empresa.

     Como disse, a UPS SCS faz a distribuição de produtos acabados da empresa ao consumidor final. Só existe um porém nessa história. Para distribuir rapidamente o produto precisa estar disponível a priori, e para que esteja sempre disponível, é necessário armazenar toneladas e toneladas de produtos em um Centro de Distribuição. Assim como o transporte, há alguns anos atrás, cada empresa possuía seu próprio armazém para os produtos. Mas, com o serviço terceirizado da UPS, houve também a oportunidade de centralizar o armazenamento, de modo que todas as empresas estocassem seus produtos em um só armazém, facilitando assim a distribuição. Temos então um Centro de Distribuição Central, na Holanda, onde dezenas de empresas armazenam seus produtos acabados, e onde a UPS retira-os para distribuição sempre que há uma chamada. Tudo sob o nome de UPS.

     A inovação proporcionada foi absurda, e o sucesso foi estrondoso. Aos poucos, outras empresas na Europa começaram a oferecer serviços similares, e a promover concorrência. Mas a UPS veio denovo com mais uma super-novidade, oferecendo aos seus clientes um sistema de pós-vendas, e logo logo distanciou na frente denovo.

     Post-Sales, ou SPL (Spare Parts Logistics) é o ramo da empresa onde eu trabalho. Basicamente, o que fazemos é o seguinte: você compra um laptop Dell, o laptop é retirado do Centro de Distribuição da UPS e entregue na sua casa por um caminhão também da UPS. Até aí tudo ok. Você usa seu laptop todos os dias, se diverte, e tal e tal. Mas, eventualmente, um dia seu laptop quebra, dá pau. E nada que você tenta fazer consegue trazê-lo de volta à vida. É aqui que nós entramos em ação.

     Você liga para o suporte da Dell, fala com o técnico da Dell, que tenta de pedir pra reiniciar o computador, para dar CTRL+ALT+DEL, para iniciar em Modo de Segurança, e blá blá blá, todas essas coisas óbvias que você já havia tentado. Nada resolve. Aí ele fala: "o problema é com a placa mãe, vamos ter que trocá-la". O técnico da Dell entra então em contato com o Business Support Center da UPS, solicita uma placa-mãe, e pede que seja entregue na casa do cliente, juntamente com um técnico capacitado para fazer a troca do componente.

     Acontece que durante esse tempo o cliente não tem laptop, apesar de ter pagado para ter laptop 24h por dia. E a situação é ainda mais crítica se o produto não for um laptop, e sim uma máquina de xerox numa copiadora. Ou, pior ainda, se for uma máquina de hemodiálise num hospital. Já pensou? É por isso que esse serviço de substituição de componentes e reparos técnicos deve sempre ser feito em tempo recorde. Só para vocês terem uma idéia, atualmente a UPS consegue cobrir mais de 90% dos pedidos feitos dentro da Europa Ocidental em menos de 4 horas. Só 10% dos reparos leva mais de 4 horas.

     Mas como tudo é feito tão rapidamente? Simples. Espalhado poor toda a Europa (e África e Oriente Médio) existem armazéns menores, contendo somente peças importantes de substituição. Esses armazéns menores são chamados de FSL. E, além disso, em cada país existem dezenas e dezenas de PUDO (Pick-up Drop-off Location), que na maioria das vezes são escritórios normais de empresas, abertos 24 horas por dia, que possuem um contrato com a UPS que podem receber itens e armazená-los, desde que seja por um período curto. Dessa forma, sempre que necessário, um carro da UPS (ou às vezes até mesmo um táxi), vai ao FSL, pega a peça a substituir, pega o técnico de sobre-aviso, leva ambos à casa/escritório/loja/hospital do cliente, faz o que tem que ser feito, pega a parte danificada, e deixa no PUDO. No dia seguinte, alguém da UPS pega o item no PUDO e leva de volta ao FSL. Em algumas situações, o táxi pode até mesmo pegar a parte no FSL e levar ao PUDO, deixando lá para o próprio cliente ir buscar. Além disso, o FSL é sempre "recarregado" com itens a partir do Centro de Distribuição Central, o mesmo que eu descrevi anteriormente, e o PUDO é sempre "descarregado" com os itens danificados que são devolvidos, e levados para o Centro de Reparo de cada empresa.

     Como otimizar esse processo todo? Basta que tenhamos PUDOs e FSLs localizados de maneira mais estratégica possível, dentro de cada país. As localizações devem ser tais que o espaço disponível esteja sempre ocupado, o número de empresas utilizando-o seja máximo, o custo de administração e pessoal seja mínimo, e a distância percorrida entre FSL-PUDO-Consumidor seja a menor possível. Para isso, é necessário muito estudo e gente boa trabalhando, e as pessoas que fazem isso trabalham do meu lado.

     Outro trabalho do meu departamento é o seguinte. Uma nova empresa quer começar a utilizar esse sistema fenomenal de pós-vendas da UPS. Para isso, ela entra em contato com a UPS, informa onde quer seu Centro de Distribuição, qual o volume que deverá ser transportado mensalmente, onde ficam seus consumidores finais, e quais suas exigências de tempo máximo de entrega dos produtos. Baseando-se nesses dados, o time de Solutions deve formular uma solução ótima para a empresa, dizendo quais os FSLs devem ser usados, e quais os PUDOs devem ser usados, de modo a garantir que o tempo máximo de entrega não seja ultrapassado. As pessoas que fazem isso também trabalham do meu lado, no meu departamento.

     Mas, tudo isso custa um preço, não é? E o time de Solutions, aos dizer qual a solução ótima em termos de quais localidades usar, diz também quanto custa tudo aquilo para a empresa. Mas de onde vem esse preço??? É exatamente aí que eu entro!!!

     O que eu tenho feito na empresa desde Novembro é criar um sistema de precificação desses serviços, baseando-se nos nossos custos. Qualquer preço de quaquer produto no mercado é sempre baseado em seu custo. Num restaurante, por exemplo, a comida é vendida por um preço proporcional ao seu custo, acrescentando uma margem de lucro. Numa loja, a mesma coisa acontece. O vendedor compra o produto e vende por um preço proporcional, acrescentando uma margem de lucro. Na UPS não é diferente.

     Então, para fornecer um preço à empresa, precisamos saber exatamente TODOS os nossos custos extras quando essa empresa passar a utilizar nossos serviços. Por exemplo, precisaremos de mais espaço nos FSLs, o volume nos PUDOs será maior, precisaremos pagar o transporte dos produtos do Centro de Distribuição para o FSL, precisamos pagar o Business Suport Center... Tudo isso tem um custo, e tudo é variável conforme as exigências da empresa. E, baseado nas exigências dessa empresa, preciso calcular o custo da forma mais acurada possível, para que, ao final, o preço seja o mais baixo possível (para ser competitivo no mercado), mas também não seja tão baixo a ponto de não dar lucro (ou do lucro ser muito pequeno).

     Pronto, é isso. Espero que tenha sido claro o bastante, e que todos entendam exatamente o meu trabalho de agora para frente. Posso dizer que estou gostando muito do que estou fazendo, e é bem desafiador também. E gosto de sentir que o projeto tem uma importância extrema na empresa, me faz querer fazer tudo com qualidade para que os resultados sejam perceptíveis. E parece que eles estão bem perceptíveis, já que tenho recebido inúmeros elogios dos gerentes da empresa sobre o meu trabalho. =D

UPS e "a notícia"

     Já fiz um post sobre o meu trabalho, mas pretendo agora explicar um pouco mais sobre o que eu faço específicamente, e contar algumas novidades (não tão novidades assim mais) na empresa que podem ser extremamente importantes para o meu futuro.

     UPS, a maior empresa de distribuição do mundo, compra em 2004 a gigante "Menlo Worldwide Forwarding", e entra assim no mercado de transporte pesado. Abre portas então para prestação de serviços de transporte de produtos acabados para empresas, e o ramo que cuida dessa área é chamado UPS Supply Chain Solutions. Desde então, os dois segmentos seguem como se fossem duas empresas separadas, e até mesmo os escritórios centrais são separados, tornando a UPS SCS o mais independente possível.

     Enquanto a área de atuação da UPS é o transporte particular de cartas e produtos (tipo um correio super otimizado, que faz entregas nacionais ou internacionais, em tempo mínimo, qualidade máxima, permitindo serviços de rastreio via internet e coisas do tipo), a UPS SCS presta serviços a empresas terceiras. É simples. Toda empresa que fabrica produtos precisa revendê-los. O procedimento antigo de revenda era baseado no consumidor se deslocar até a loja da empresa, escolher seu produto, pagar, e levá-lo para casa. Hoje em dia é diferente, o consumidor escolhe e paga o produto pela internet, e recebe o produto em casa.

     Mas quem entrega o produto na casa do consumidor, afinal de contas? Quando esse formato começou a aparecer, quem entregava era a própria empresa. Cada empresa possuia ums serviço de entrega individual, que entregava o produto escolhido na casa do consumidor final. Mas a entrega era extremamente cara e ineficiente. Imagine, por exemplo, um consumidor do Oriente Médio fazendo uma encomenda de um produto de uma empresa inglesa. Pior ainda, imagine que ele é o único consumidor encomendando um produto desta empresa, e a empresa tem um prazo máximo de entrega. Ou seja, vai sair um caminhão da Inglaterra em direção ao Oriente Médio, carregando um só produto, para o pobre do consumidor. Digo pobre porque é provavelmente como ele vai ficar se solicitar um serviço desse tipo.

     Mas aí vem a UPS SCS, com uma solução genial. Afinal de contas, ela tem 100 anos de experiência em transporte de encomendas, sempre com rapidez e qualidade, via terra, mar ou ar. Ela pergunta à empresa: que tal se eu fizer as entregas de seus produtos para você, oferecendo um preço muito mais baixo do que você paga atualmente, e uma qualidade muito maior, de modo que você possa oferecer também ao seu cliente um preço mais baixo na entrega? É claro que é um bom negócio, e é por isso que a UPS SCS cresceu tanto e tão rapidamente.

     O sucesso da SCS foi tremendo. Em 2006, o lucro gerado pela UPS SCS já era tão grande quanto o da UPS, a empresa continuava crescendo num ritmo assustador. Mas havia algo de errado. Tanta independência entre as duas empresas era algo ruim, considerando-se que era extremamente complicado para a UPS SCS utilizar-se dos veículos da UPS. A UPS cobrava da UPS SCS normalmente, como se ela fosse um cliente qualquer (oferecendo um preço bem mais baixo, obviamente), e, além disso, não havia compartilhamento de dados sobre rotas, tempos, etc. Cada empresa possuia suas próprias rotas a seguir, seus próprios veículos, seu próprio escritório central... Tudo separado.

     Em 2007 a empresa fez 100 anos de existência, e, na ocasião da celebração, foi anunciado que UPS SCS e UPS voltariam a ser uma só empresa. Aos poucos, tudo que era então separado passaria a ser junto, e até mesmo a marca UPS Supply Chain Solutions desapareceria com o tempo. Mas, claro, tudo a seu devido tempo.

     Falando de Europa, temos o escritório central da UPS, que coordena toda EMEA (Europa, Oriente Médio e África) localizado em Bruxelas, devido a ótima localizacão da cidade na Europa. Fica exatamente no centro, facilitando transportes de produtos em tempo mínimo. Ao mesmo tempo, temos o escritório central da UPS SCS localizado na Suíça, que é um ótimo país para empresas se instalarem devido aos baixos impostos. Acontece que, desde o anúncio do realinhamento das duas empresas em 2007, a tensão é grande. Todos os trabalhadores dos dois escritórios sabiam que não continuariam separados por muito tempo. Restava saber qual dos dois escritórios se mudaria, e quando.

     A resposta veio em Novembro, do ano passado. Eu só estava na empresa há duas semanas, e não tinha a menor idéia do quão grande era aquela notícia. Todos da empresa se reuniram, e o chefe dos chefes da UPS EMEA veio nos falar que, após muita análise, havia sido decidido que UPS SCS seria realocada no mesmo escritório da UPS, em Bruxelas. O escritório na Suíça seria fechado no final de Maio de 2008, e, até Fevereiro, a todos da empresa seriam ofeceridos novos contratos e oportunidades de emprego na Bélgica. Todos precisariam analisar a proposta e decidir se gostariam ou não de se mudar para Bélgica.

     Lembro do quão feliz fiquei nesse dia, ao mesmo tempo em que todos os outros morriam de tanta tristeza. Na verdade, não tinha a menor idéia do que aconteceria comigo, mas sabia que, na melhor das hipóteses, seria transferido para Bélgica, e conheceria outro país de graça! Na pior das hipóteses, terminaria meu intercâmbio antes, em Maio, ao invés de esperar até o final de Junho, que era o que o meu contrato diria. Qualquer uma das opções era boa, e esse era o motivo de eu estar rindo a toa.

     Minha sorte estava mesmo em alta. Graças ao meu trabalho bem feito durante as primeiras semanas, tinha passado uma ótima impressão para os meus gerentes, e, por isso, pouco tempo depois veio a boa notícia. Descobri que mesmo minha melhor hipótese não era tão boa quando a oferta que eles me fizeram. Fui oferecido me mudar para Bélgica, como todos os outros, mas não como estagiário, e sim como empregado full-time! E, de quebra, ainda receberia um mega-pacote de recompensas para me ajudar na mudança (que para muita gente é algo super complicado, mas para mim era só felicidade!). O pacote incuiria 4 meses de salários extras (!), mudanças, visitas à Bruxelas para procurar moradia, hospegando em hotel, cursos de francês particulares, e muitas outras coisas. Quer mais o que???

     Acontece que mudar com a empresa nessa situação, com tantos benefícios, viria com um preço. Dois anos de débito, durante os quais não poderia sair da empresa a não ser que devolvesse proporcionalmente os benefícios que eu recebesse. E, para mim, nessa fase da minha vida, fazer esse tipo de compromisso é algo extremamente complicado. Expliquei para o meu chefe que não podia dar a resposta tão de imediato, e que queria um tempo para pensar. Passado um tempo, conversamos denovo e conseguimos chegar a um acordo ainda melhor, na minha opinião. Terminaria meu estágio antes do previsto, esse semestre, depois voltaria para o Brasil, faria o meu semestre do ITA, normalmente, para, no final de 2008, voltar novamente para UPS. Mas, dessa vez, direto para Bruxelas, e já com um contrato de emprego full-time. E ainda receberia uma parte do pacote de realocação, para me ajudar com as despesas de mudança! E o melhor de tudo, sem compromisso com a empresa depois de eu me formar!!!

     Não podia esperar nada melhor, estou extremamente satisfeito com tudo. Além de tudo, ainda vou ter um tempo maior para pensar sobre minha vida e meu futuro, e preciso dar a minha resposta somente depois do meio do ano, por volta de Agosto. Até lá, posso viajar, divertir, e pensar muito sobre o que eu quero fazer na minha vida e nos meus próximos anos.

Ócio

     Finalmente, um fim-de-semana em casa. Sem nada para fazer, sem fazer nada. Já é noite de domingo, eu olho para trás, penso o que eu fiz no fim-de-semana, e vejo que não fiz nada. Sinto orgulho.

"E vós, para quem a vida é trabalho e inquietação furiosos - não estais por demais cansados de viver? Não estais prontos para a pregação da morte? Todos vós para quem o trabalho furioso é coisa querida - e também tudo o que seja rápido, novo e diferente - vós achais por demais pesado suportar a vós mesmos; vossa atividade é uma fuga, um desejo de vos esquecerdes de vós mesmos. Não tendes conteúdo suficiente em vós mesmos para esperar - e nem mesmo para o ócio".

Nietzsche

Museumsnacht

     Sexta-feira a noite, finalmente, chegando do trabalho... Fazer o quê? Liguei para um amigo da aiesec, Jeroen, convidando para sair ou fazer qualquer coisa que não ficar em casa e dormir. Sem resultado, chamou chamou e não atendeu. Droga, vou pra casa então.

     No caminho, porém, meu telefone toca, e é justamente o Jeroen: "Sorry, I couldn't answer you because I was in the museum". Museu??? O que? Como assim, hoje é sexta feira, e já são sete e meia da noite. "Yes, don't you know? Today is Museumnacht in Bern".

     Após uma breve explicação, entendi o que estava acontecendo. Era noite do museu em Berna: todos os 34 museus da cidade abertos em caráter excepcional, das 18h às 02h da madrugada. Isso mesmo, duas da madrugada. Pensei: caramba, isso é inacreditável, só na Suíça mesmo para fazerem um evento desse tipo, e ainda mais numa sexta-feira a noite. Mas bom, duvido que vai ter alguém nesse negócio, todo mundo vai estar em casa, se preparando para curtir a noite.

     Queimei a língua. Ainda no telefone, meu amigo disse: "Estamos na Helvetiaplatz nesse exato momento, vamos entrar no Museu da Comunicação. Não quer se juntar a nós?". Hahaha, não iria por nada nesse mundo, hoje é sexta-feira, e é dia de celebrar, não de museu. Mas, naquele exato momento, meu Tram que me leva para casa todos os dias, anunciava: "Nächste Halt: Helvetiaplatz". Ah, quer saber, já estou aqui mesmo, vou descer e dar um "oi" pro pessoal.

     Ao descer do tram, a surpresa. A praça estava "entupida", transbordando gente. Aí vocês vão pensar: "é noite de museu, só deve ter vovô lá"... Que nada, pouquíssimos velhos, a grande maioria eram jovens, nos seus 20 e poucos a 30 e poucos. Sem dúvida nenhuma, algo bizarro para a minha cabeça. O grande programa de sexta-feira a noite era visitar museus. E não era um eventozinho qualquer, era O Evento! Não tinha visto a cidade mobilizada para um evento assim desde a Onionmarket, em Novembro do ano passado.

     Encontrei Jeroen, que estava com amigos da Aiesec. Batemos um papo, perguntei direito como era aquele evento e ele me explicou tudo. Paga-se 25 francos e tem-se direito de visitar os 34 museus da cidade, durante 8 horas, com transporte público entre eles gratuitamente, e com direito a um Nightclub ao final. Hã? Ir para balada depois de visitar museus era uma combinação meio estranha, mas, confesso que o encerramento do evento me chamou atenção e me convenceu a arriscar.

     Comprei meu ingresso (aiii, 25cão!) e comecei minha jornada pelos museus de Berna. Fiquei positivamente surpreso com o evento, e digo que após a primeira hora já estava adorando. Eu adoro visitar museus, sempre o faço em minhas viagens, mas visitar museus naquela situação era algo muito especial. A grande maioria era gente nova, os museus todos tinham exposições especiais para o evento, cada um com um assunto diferente do outro (pouquíssimos eram do tipo convencional de arte e pintura), decorações especiais, todo mundo muito vivo e interessado, e ainda sempre rolava uma cervejinha entre um museu e outro. A cidade estava transbordando cultura!

     Destaque especial para o Conservatório de Música de Berna, que estava também aberto em caráter excepcional e foi palco de apresentações dos principais músicos da cidade, desde música clássica e ópera, até jazz e popular.

     E foi assim que passei minha sexta-feira. A baladinha no final foi relativamente boa, mas confesso que não foi nem de perto a melhor parte da noite. E, mais uma vez, volto para casa surpreso com essa cultura da suíça, na qual os jovens curtem a sexta-feira a noite saindo com os amigos para o museu ao invés de sair para o bar.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Direto do Nokia E90

Aloprei...

Resolvi gastar um pouco mais do que normalmente se gasta e comprei um celular um pouco melhor do que normalmente se compra. Pra que? "Celular e para fazer e receber ligacoes, e pronto", vao dizer. Eu concordaria com a afirmacao se ela fosse feita no seculo passado, ou mesmo nos ultimos anos. Mas hoje em dia e diferente, e a tecnologia nao tem limites... E eu, como um bom fa de novidades tecnologicas, comprei um celular-laptop.

Sim, e isso mesmo. O celular tem todas as funcoes de um celular convencional, acrescidas de um mini-laptop. Com teclado QWERT, word, excel, powerpoint, internet wireless e tudo! E ainda inclui todos esses recursos que acompanham os celulares modernos de hoje em dia: GPS, bluetooth, camera de 3 megapixeils com flash... tem de tudo mesmo.

O nome do celular e Nokia E90, o top dos tops da Nokia. Consegui uma barganha pelo ebay, e acabei levando a maquina pelo preco de um celular (dos bons) normal!

E para provar a eficiencia do celular, estou postando esse post inteiramente pelo celular, usando editor de texto word e conectando pela internet wireless... Pouco foda, ne?

terça-feira, 25 de março de 2008

Florença

     Estar no lugar certo na hora certa. Apesar de o clima não ter melhorado, e de inúmeros outros problemas terem acontecido nessa viagem, ainda assim considero que tive sorte de estar em Florença nesses dois últimos dias. O motivo é simples, vou explicar...

     Florença começou um pouco mais tarde do que eu havia previsto, uma vez que abri mão de viajar de manhã para assistir ao Papa em Roma. Viajei então logo após a missa, no trem das 13h, e cheguei em Florença de tardinha. Direto ao albergue, tive a desagradável surpresa de ter a minha reserva arbitrariamente cancelada: o albergue havia feito overbooking para a Páscoa, e eu havia sido um dos escolhidos para perder o quarto.

     Claro, não ficaria barato assim. Bati o pé que a obrigação de me conseguir hospedagem (sem pagar mais por isso, claro), era deles, mas infelizmente TODOS os albergues de Florença estavam lotados na ocasião. A solução que eu encontrei foi simples: não pagaria a minha reserva e dormiria no sofá do albergue. Dito e feito! Hospedagem gratuita, com direito a internet e café da manhã.

     O problema foi que esse rolo todo acabou com minha tarde, e quando resolvemos o problema já estava anoitecendo. Ou seja, um dia a menos. Aproveitei a noite para comer pizza (sim, pela trocentésima vez), que por sinal foi a melhor pizza que eu já comi. Fantástica! E o melhor de tudo, apenas 7 euros, hehe.

     Aproveitei então para dormir mais cedo, já que no dia seguinte seria obrigado a acordar logo que a recepção do albergue abrisse. Tirei proveito da situação e, logo que acordei, fui direto à Galeria Academia, um dos dois museus mais famosos de Florença (e de todo o mundo, quando se trata de arte renascentista). Enfrentei uma fila minúscula (para os padrões de Roma), e, depois de menos de meia hora já estava dentro!

     Museu legalzinho. Teria adorado se arte renascentista fosse a minha área, mas não é. Então foi só legalzinho mesmo. Mas, a grande exceção foi a estátua de Davi, de Michelangello. Essa sim foi de tirar o fôlego! Simplesmente fenomenal, uma estátua de mais de 3 metros de altura, tão perfeita que parece real. A riqueza de detalhes é algo absurdo, é possível ver as veias na mão de Davi, a pontinha das unhas, cada músculo, tudo é inacreditavelmente perfeito.

Estátua de David, de Michelangello

     Terminei a visita ao museu na hora do almoço, e após um Kebab, logo voltei ao albergue. Estava lá, usando a internet tranquilamente quando tive mais uma desagradável surpresa. O dono apareceu, perguntou quando era o meu check-out, e sabendo que eu não ficaria mais uma noite no albergue, resolveu me pedir para me retirar. Achei aquilo o maior absurdo do mundo, ainda mais depois do que aconteceu na noite anterior, mas depois de discutir e bater boca, xingar até não poder mais, resolvi que iria sair mesmo daquele lixo, ainda que ele tivesse mudado o discurso e autorizado que eu ficasse mais lá.

     Saí na hora certa. Resolvi que ainda não era hora de desistir de Florença e, debaixo de chuva, parti em direção ao Il Duomo, uma das maiores catedrais do mundo. Fiquei surpreso quando entrei lá, o lugar era tão grande que faz a Catedral de Notre-Dame parecer uma capelinha (apesar de que a beleza do lugar não se compara com a catedral francesa). Achei engraçado, já que a Catedral de Notre-Dame era, até o momento, disparado a maior catedral que já tinha visto... Mas não tem limite mesmo para o que o dinheiro do dízimo pode fazer.

     Uma construção de tamanha magnitude não podia deixar de ter uma cúpula, e essa tinha uma com nada menos que 82 metros de altura. Pagando-se 6 euros, pode-se subir os 414 degraus e ter uma visão da cidade toda, então, após relutar um pouco (a grana tá no finalzinho), resolvi que enfrentaria a última fila gigantesca da viagem e subiria até o topo. O motivo maior para eu mudar de idéia foi que a chuva havia dado uma trégua, e eu poderia esperar na fila sem me encharcar denovo.

     E foi aí que o fato mais bizarro da viagem aconteceu...

     Após pouco mais de uma hora na fila, comecei a subir os degraus. Após alguns minutos, uma primeira vista da cidade. Vista bonita, mas uma má notícia: a chuva havia voltado, e não estava fraca não.

     Mais uns minutinhos subindo degrau a degrau, junto com uma multidão, e mais uma janelinha. Sim, a chuva havia piorado, e o céu estava cinza escuro. Estava realmente medonho, e nessa hora eu só pensava em como estariam os coitados que estavam ainda na fila.

     O último lance de escadas estava chegando, e quando faltavam pouco mais que dez degraus, um segurança me solicitou que parasse, para que o pessoal que estava lá em cima descesse. Ele disse: dez sobem, dez descem. Estava então esperando os dez descerem, e eu seria então o primeiro a subir ao topo. Teria sido assim, se não tivesse acontecido algo totalmente inesperado.

     De repente, do nada, ouvi uma explosão, algo que eu não consigo descrever de tão alto. Parecia uma bomba, e veio acompanhada de um clarão azul de cegar os olhos. A escada, que era onde eu estava piscou como um super-flash de máquina fotográfica, apesar de ser escura normalmente. E meu coração acelerou, minhas pernas tremeram.

     Pânico.

     Um tumulto começou. Gente gritando, um empurra-empurra para descer as escadas. O walkie-talkie do segurança começou a receber chamadas, perguntando o que diabos havia acontecido. O segurança, branco de medo, não sabia o que fazia, apenas gritava tentando conter o tumulto. Ninguém entendia nada, apenas morria de medo e gritava socorro.

     As luzes se apagaram.

     Logo desceu uma garota chorando horrores, dizendo que havia caído um relâmpago no centro da cúpula. Chorava e chorava, desesperada, e não sabia para onde fugia. O segurança perguntou se estavam todos bem, se alguém havia se ferido. Felizmente, parecia que todos estavam bem, apesar de completamente aflitos.

     As dezenas de pessoas que estavam no topo não sabiam o que faziam. Se empurravam para conseguir descer, mas não podiam, já que as luzes haviam se apagado. E era impossível descer aquelas escadas sem luz, aquilo ficava um breu total. Demorou cerca de meia hora até as pessoas começarem a se acalmar, e, com o auxílio de alguns seguranças que chegavam ao topo naquele momento, todos começaram a descer com o auxílio de algumas lanternas.

     Esperei a confusão toda passar e, sim, acreditem se quiser, eu subi lá em cima ainda. Subi sozinho, ninguém mais teve coragem, mas pude apreciar uma vista de toda Florença enquanto nevava, e foi realmente algo marcante. Confesso que meu coração estava a mil por hora, mas valeu a pena.

     Parei então para refletir sobre o que tinha acontecido, mas não pude concluir se eu havia tido sorte de ter presenciado esse acontecimento maluco, de camarote, ou se havia tido azar, por não ter tido a oportunidade de ver um relâmpago cair a um metro de distância de mim. Sorte ou azar, só sei que foi algo memorável, e tenho certeza de que não vou esquecer as feições de pânico no rosto de tanta gente, ou aquele clarão azul sobre a minha cabeça.

     Não vejo a hora de procurar na internet a notícia do acontecimento.

Vista da cúpula do Il Duomo

Roma, non basta una vita!

     Estar no lugar errado, na hora errada. Foi exatamente o que aconteceu comigo nessa viagem à Roma, que por sinal era para ser uma das mais fascinantes até o momento. A fascinante idéia de fazer uma viagem à Itália durante o feriado de Páscoa se mostrou um tanto quanto besta, especialmente considerando que o clima estava pra lá de ruim - chuva, chuva e mais chuva. Mas, de posse de um ticket para o trem-noturno comprado com tanta antecedência, por um preço de banana, nada seria motivo para me fazer desistir da viagem.

     A cidade é maravilhosa, no entanto. De acordo com o Lonely Planet, "possivelmente a única capital européia com mais ruínas do que cocô de cachorro". E é verdade, andar pela cidade, principalmente na região ao redor do Coliseu, realmente te faz sentir diferente, e te faz imaginar como seria a vida na Roma Antiga. Ruínas aqui, mais ruínas ali, e, se você prestar bastante atenção, ainda pode encontrar mais ruínas lá, e aos poucos a gente vai remontando a história e entendendo melhor sobre todos aqueles lugares que ouvimos falar em filmes ou no colégio mas que nunca entendemos direito.

     O início da aventura foi bem legal. O trem noturno que ia de Berna a Roma era bem interessante: basicamente, o trem era um dormitório, com camas e mais camas para o pessoal passar a noite dormindo, e chegar em Roma às 9 da manhã seguinte. Fiquei num vagão com 6 camas, agrupadas como se fossem 2 treliches, e pelo menos na minha opinião, a viagem foi bastante confortável: pude dormir do início ao fim, acordando pouquíssimas vezes durante a noite. E por volta das 8 da manhã, ainda fui surpreendido por um serviço de "quarto" servindo um café da manhã e recolhendo as roupas de cama. Show de bola.

Trem noturno de Berna à Roma

     O jogo começa a virar logo ao chegar em Roma. Buscando fazer economias (já que tenho gastado horrores nessas minhas viagens de fim-de-semana), reservei um albergue bem afastado da cidade, que tinha um preço mais razoável. Acontece que, embora reservado como um albergue, o lugar era mais um "camping ground" com uns dormitórios que um albergue propriamente dito, o que não seria problema algum se não estivesse caindo um pé d'água e tudo não tivesse virado uma lama só. No fim das contas, 10 euros por noite foi mais do que um preço caro para um lugar onde eu passei frio até durante a noite, e onde os chuveiros nem tinham água quente direito.

     O ponto positivo foi que eu conheci uma galerinha massa, com quem fui bater perna pela cidade já no primeiro dia. Começamos com o Coliseu, e de lá fizemos um percurso passando pelos principais monumentos: Arco de Constantine, Fórum Romano, Tempio di Antonino e Faustina, Basilica Aemilia, Lapis Niger, Arco di Settimo Severo, Tempio di Saturno, Tomb of the Unknown Soldier, e outros vários lugares que eu nem sei o nome. Fomos então ao Pantheon, esplêndido monumento que me impressionou bastante, e então à Fontana di Trevi, onde pude jogar uma moeda sobre meu ombro e, como diz a lenda, garantir o meu retorno à Roma.

Coliseu

Monumento do Soldado Anônimo

Pantheon

Fontana de Trevi

     Após um pit-stop para uma pizza e um gelado, fomos ao Castel Sant'Angelo e seguimos ainda um pouco mais a oeste, chegando finalmente ao Vaticano. Não fiquei muito tempo lá por dois motivos: primeiro, porque eu voltaria ao Vaticano na manhã segunte, e segundo porque a chuva a esta hora já começava a atrapalhar os meus planos.

Castel Sant'Angelo

Praça de São Pedro, no Vaticano

     De volta ao "camping ground", uma cerveja com os novos amigos, e cama. Dormir cedo para acordar cedo, e chegar o quanto antes no Museu do Vaticano, famoso pelas filas quilométricas, e conseguir entrar antes do meio dia. Ótimo, até aí. No dia seguinte, consegui chegar à fila do museu às 8h30, e esse foi o início da jornada. Debaixo de chuva forte, enfrentei fila por 4 horas - sim, 4 horas! - , só conseguindo entrar no museu quase 1 hora da tarde. Estava ensopado, cabelos, jaqueta, calça e, principalmente, os pés. Já estava criando bolha nos pés, de tanto andar na chuva com o pé molhado. Durante essas longas 4 horas, só o que passava pela minha cabeça era como eu pude ter sido tão ingênuo de marcar uma viagem à Roma num feriado como Páscoa, e ainda por cima com um clima tão ruim!

Fila para o Museu Vaticano

Finalmente, entrada do Museu Vaticano

     O museu ajudou um pouco a recuperar meu humor. É um ótimo museu, dá pra passar horas lá sem ver o tempo passar, muita coisa interessante, muita arte renascentista. Destaque especial para a Capela Sistina, ao final, com incríveis obras de Michelângelo.

     Após um bom almoço típico, os planos seriam visitar a Basílica de São Pedro. Chegando lá, para a minha surpresa, uma fila tão grande que contornava aquela praça oval do Vaticano, a Praça de São Pedro. Fiquei na fila por mais uma hora e meia, debaixo de chuva forte, sempre imaginando por que é que o São Pedro não colaborava um pouco conosco, já que queríamos visitar justamente seus aposentos. Nada, ele não ouviu minhas preces, e a chuva continuou. Já estava começando a anoitecer quando resolvi perguntar ao policial por que a fila não andava. A resposta foi: esta não é a fila para visitar a Basílica, esta é uma fila para assistir à missa de Páscoa, e só entra quem tiver o ingresso.

     AEEEEE! Maravilha!!!!! Puto da vida, dei meia volta e tomei o caminho de volta ao camping, disposto a fugir logo da cidade na manhã do dia seguinte e seguir a Florença. E assim seria, se não tivesse mudado meus planos no último minuto. A caminho da estação de trem, ouvi um pessoal comentando sobre a missa de Páscoa que aconteceria no Vaticano dentro de uma hora, e coisas do tipo: "Não me importa a chuva, eu só quero é ver o Papa!", ou "eu quero poder olhar aquelas fotos do Vaticano lotado, transbordando gente, e pensar: eu estava lá!". Bem, puxei papo com eles e, meia hora depois, estava eu lá no meio da multidão, aguardando debaixo de chuva a hora em que o Papa apareceria ao público. Pude ver o Papa, ao vivo e pelos telões, assisti metade da missa, e quando eu estava praticamente afogando com tanta água nas minhas roupas, decidi dar meia volta e seguir viagem.

Missa de Páscoa, com a presença do Papa

     E foi assim que terminou a aventura pela cidade que, por séculos, foi o centro do mundo ocidental. Passei minhas horas no trem para Florença refletindo se o dilúvio de Noé poderia ter acontecido em Roma, e se a Basílica e Praça de São Pedro são realmente de São Pedro, ou, se são, se ele estava só de sacanagem com a gente. Abandonei a cidade então sem ter tido a oportunidade de conhecer lugares famosos como a Basílica de São Pedro, mas com a tranquilidade de ter arremessado a moeda na Fontana de Trevi, garantindo então que eu ainda volto um dia.

Mais viagens e A viagem:

     Paralelamente aos planos de viagens do próximo fim-de-semana, ainda me ocupo sempre com o planejamento d'A Viagem Final, que, a propósito, ainda preciso escrever sobre aqui no blog detalhadamente.

     A boa notícia é que, nessa última semana, as coisas se ajeitaram. No trabalho, decidi finalmente quais os dias eu vou tirar de folga, e quando exatamente eu paro de trabalhar. E, nos consulados, já comecei a tirar os meus vistos. Ou seja, as coisas estão encaminhando.

     Não vou entrar em maiores detalhes, no entanto. Vou escrever primeiro sobre as últimas viagens, e logo depois escrevo um post gigante sobre o mochilão final... Aguardem, pois vai ser uma grande surpresa!

5 in a row...

     A razão pela qual eu ainda não escrevi sobre minhas últimas viagens é simples. Tempo! Desde que comecei a viajar durante os finais de semana, não sobre tempo para eu fazer nada mais além de programar viagens. Comprar passagens, reselvar albergues, ler sobre o país, programar roteiros, todas essas coisas acabam ocupando minhas noites, que, por sinal, não são muitas, já que geralmente a primeira noite da semana tem como objetivo recuperar as energias gastas durante o fim de semana e a última já é parte da próxima viagem.

     Não estou reclamando, no entanto. Eu adoro fazer planos de viagens, ficar horas lendo sobre o país, sobre as atrações, monumentos, sobre a história... E comparar a imagem que eu faço do país antes de viajar, com a impressão que eu tenho quando já estou lá, é simplesmente fantástico.

     Acontece que essa rotina de planejamentos de viagens, com uma semana de três noites e finais de semana pra lá de cansativos, acaba com o meu tempo e minha energia. Cinco semanas, non-stop, 22 dias de viagem no total, 10 cidades. Próximo fim-de-semana eu fico em casa para colocar a casa em ordem e descansar um pouco...

The Business (?) Trip...

     Como dito anteriormente, ganhei um fim-de-semana grátis na Holanda graças a minha querida UPS. Com o objetivo de fazer uma reunião de negócios, embarquei com o meu time de trabalho na manhã de quarta-feira, dia 12 de Março, para Eindhoven.

     Aconteceria nos dias 12 e 13 uma reunião dos times de Solutions de toda a Europa, de modo a discutir os modos de trabalho de cada time, alinhar os objetivos, e discutir a situação atual da empresa. A reunião foi ótima, serviu para me dar uma melhor noção da empresa, para conhecer muita gente importante, e ainda para me fazer sentir importante e responsável!

     Um ponto realmente legal foi o fato de que os escritórios presentes eram todos locais, com exceção do nosso, que é o escritório central da EMEA (Europa, Oriente Médio e África). Sendo assim, todos os escritórios presentes eram "subordinados" ao nosso. A sensação de ver que o meu chefe direto é um cara "super foda" num contexto geral, e que todos os presentes deviam se reportar a ele, me fez sentir importante também. E a sensação de ver o chefe do meu chefe - que por sinal é super gente boa, já tive várias reuniões com ele e já recebi vários elogios dele também! - era o presidente geral da reunião, me fez sentir ainda melhor! Na reunião, todos sabiam do projeto em que eu estou trabalhando, e todos o consideram um projeto de extrema importância!

     Além de fazer vários contatos, ouvir várias palestras e participar de várias discussões, a reunião ainda serviu para eu descobrir que o meu time de trabalho é ainda mais divertido e unido do que eu pensava. Na noite do dia 12 para o dia 13, terminamos o jantar executivo no hotel e começamos o happy-hour. Tínhamos uma mesa enorme, e a galera mais alegre de todas. Todos jovens (menos de trinta), e um time totalmente internacional (dois franceses, dois sul-africanos, uma ucraniana, uma romena, um holandês e eu de brasileiro). Após beber umas cervejas por conta da UPS, fomos todos a uma balada (isso mesmo, balada!) para celebrar o momento, e foi uma das baladas mais divertidas em que eu já fui na Europa!

     O encontro terminou na quinta-feira, dia 13, por volta do meio dia. Após o almoço, recebi um convite do pessoal de Eindhoven para visitar as instalações da UPS em Venlo, uma cidade vizinha a Eindhoven, onde pude conhecer então na prática como funciona isso de "warehousing" e "transportation". Conheci os armazéns de depósito da Philips Medical Systems, da Dell, da Cisco, e de várias outras empresas, e pude ver como o pessoal da UPS recebe os items, armazena-os, pega-os de volta e envia para o cliente. Pode parecer algo banal, mas tente pensar nessas atividades em um armazém de 70 mil quilômetros quadrados, com estantes tendo até 20 metros de altura, todas lotadas de produtos, cada um necessitando de cuidados e tratamento especial. Hehehe, não é brincadeira não!

     Foi legal então que deu para ver na prática tudo que eu venho ouvindo desde que entrei na empresa. Terminada a tarde de quinta-feira, fiz meu check-out no hotel 5 estrelas, me despedi do pessoal da empresa, e fui em direção ao albergue da cidade (como a empresa não ia pagar minha noite de quinta para sexta, obviamente eu não ficaria num hotel 5 estrelas, né!?). No dia seguinte, nada de descanso ainda. Ao invés de pegar a sexta-feira de folga e gastar um dia de férias, combinei com o meu chefe de trabalhar a partir do escritório de Eindhoven. Peguei meu Laptop (meu não, da UPS), e fui lá trabalhar. Conheci mais um bocado de gente, e foi legal ver como funciona o escritório regional da Holanda.

     Fim de expediente na sexta, hora de viajar. Bati um papo com o pessoal do trabalho, peguei várias dicas, e decidi desistir de ir denovo a Amsterdam. Peguei o próximo trem de Eindhoven para Cologne (Köln, ou Colônia), na Alemanha, entrando assim no meu oitavo país na Europa.

     Passei então a noite de sexta e o sábado em Cologne, seguindo para Düsseldorf na manhã de domingo, onde fiquei até noite. Cidades menos famosas que as que eu visitei até o momento, e sem dúvida nenhuma, bem menos turísticas. Mas, nem por isso, menos interessantes. Apenas tive que descobrir um jeito diferente de aproveitá-las. Nada de caminhadas frenéticas para ver tudo que a cidade tem para oferecer, nada de ruínas antigas, nada de grandes distâncias de metrô. Um museu ou outro, uma catedral famosa aqui, mas nada de espetacular. Por outro lado, pude sentar num café e simplesmente relaxar, comer uma boa comida típica, praticar bastante meu alemão, beber umas boas cervejas, e descansar. Afinal de contas, viajar não é simplesmente conhecer o maior número de monumentos no menor tempo possível, é também viver a cultura local, fazer o que os locais fazem, e descansar...

     Peguei o avião de volta no domingo a noite, partindo de Düsseldorf em direção à Zurique, para mais uma semana de trabalho e mais um fim de semana de viagem. Dessa vez, o destino é a Itália, e no feriado de Páscoa.

Amsterdam

     (em breve...)

quinta-feira, 6 de março de 2008

No embalo...

     No embalo das viagens de fim-de-semana, embarco amanhã, sexta-feira, para Amsterdã. Infelizmente não pude mais tirar dias de folga para essa viagem, e portanto vou ficar lá só de sexta a noite até domingo a noite. Espero ser suficiente!

     De qualquer forma, essa semana fui surpreendido com uma ótima notícia na empresa. O meu departamento (Solutions Team EMEA) se reunirá com os times locais de Solutions, de modo a alinhar os objetivos e trocar experiências. A reunião acontecerá quarta e quinta da semana que vem, e, o melhor de tudo, será novamente na Holanda! A cidade é Eindhoven, que fica a uma hora de Amsterdam, e eu já pedi o meu chefe para trabalhar na sexta feira no escritório de Eindhoven, o que significa que se eu quiser voltar para Amsterdam no próximo fim-de-semana eu já vou estar lá do lado!

     Um pouco de conversa com o BigBoss foi suficiente para agendar minha passagem de volta para domingo a noite (dia 17) ao invés de quinta, e, portanto, tenho mais uma viagem no calendário, e DE GRAÇA! É nui!

     Vou deixar para escolher o meu destino na semana que vem, após conhecer Amsterdã. Se eu achar que vale a pena voltar lá, pronto, é só uma horinha de distância. Caso contrário, posso escolher viajar para uma das várias cidades legais que ficam lá por perto: Roterdã, Düsseldorf ou Colônia, na Alemanha, ou talvez até Berlim! Vamos ver, semana que vem eu decido!

     Fala sério... Viajar de graça, bancado pela empresa, e ainda do lado de Amsterdã... É muita sorte!

Um pouco de cultura...

     Com essas minhas viagens nos últimos anos aprendi uma coisa muito importante: é muito mais legal viajar conhecendo antes um pouco da história do país. Assim, ao chegar no país, podemos entender melhor as pessoas, a cultura local, a arquitetura, os principais monumentos e, o principal: saber a história nos faz sentir um pouco "parte do lugar", e não simplesmente um turista olhando tudo na terceira pessoa.

     Mas, claro, a viagem em si é também uma fonte inesgotável de cultura, e sempre que paro para refletir o quanto aprendi durante a viagem, fico surpreso.

     Nessa última viagem para a França, pude aprender muitas coisas, e vou aproveitar esse post para contar uma história que eu achei bem legal (e trágica, ao mesmo tempo). Vou falar um pouco sobre a história da guilhotina.

     Apesar de ter certeza de que todos sabem do que se trata, vai uma breve explicação. A guilhotina é um instrumento utilizado para executar ou decapitar pessoas. Consiste em estrutura de madeira na qual uma grande lâmina é suspensa, a qual, sobre um determinado comando, é solta à queda-livre sobre o pescoço da vítima, que tem a cabeça decapitada.

     Inventada na França, no final do século XVI (1788), pelo Dr. Joseph-Ignace Guillotin, a guilhotina teve um importante papel na Revolução Francesa, e teve como vítimas alguns personagens importantes como o rei Luis XVI e sua amável esposa Maria Antonieta. A primeira cabeça a rolar foi a de Nicolas-Jacques Pelletier, que foi executado em 25 de Abril de 1792, e os últimos - acreditem se quiser -, foram Claude Buffet e Roger Bontemps, que tiveram sua sentença executada em Novembro de 1972. Isso mesmo, mil NOVECENTOS e setenta e dois.

     O fato de as últimas vítimas terem sido executadas muito recentemente foi a primeira coisa que me assustou. Me faz ver que a história que estudamos ou lemos não é simplesmente ficção, ou coisa de outro mundo. É algo que aconteceu há pouco tempo atrás, nesse mesmo mundo, nesse mesmo lugar, com pessoas iguais a eu e você. Não estamos tão distantes assim dela! E, o principal, estamos construindo-a todos os dias, sem perceber. Sem dúvida nos livros de história de daqui algumas centenas de anos estarão lá pessoas que viveram nos dias de hoje e, até mesmo, quem sabe, eu e você!

     A segunda coisa que eu achei super interessante (e um tanto quanto bizarra e trágica) foi a tradição de executar as pessoas em praça pública, de modo que todos pudessem assistir. Executar pessoas começou a se tornar um costume, e sempre que havia uma decapitação pública, as praças se enchiam. Afinal de contas, qual o motivo de se executar as pessoas em praça pública? Simples, serve para que o exemplo da vítima não seja seguido pelos expectadores no futuro.

     Mas isso não seria suficiente. Se, embora a guilhotina tivesse sido criada justamente para provocar uma morte rápida e sem dor ao sentenciado, os carrascos não se contentavam com uma morte instantânea.  Um desses carrascos, Dr. Beaurieux, se aventurou em alguns testes bizarros com as vítimas., nos quais ele, após fatiar a cabeça do sujeito, chamava-o pelo nome, ou dava uma espetada com um alfinete em seu rosto. Para a sua surpresa, sempre havia uma reação.

     Henri Languille, executado em 28 de Junho de 1905 pelo Dr. Beaurieux foi uma das vítimas desses testes. Logo após a queda da cabeça, o médico (se é que assim pode ser chamado) segurou sua cabeça pelos cabelos e, mostrando a todo o público, gritou o nome "Languilleeeee!!!". Lentamente, percebeu que os olhos da vítima se mexeram e viraram em sua direção, como que respondendo ao chamado. Após alguns segundos, repetiu o teste, gritando pelo nome da vítima. Mais uma vez os olhos se direcionaram a ele. O acontecimento revelara então uma grande novidade para a ciência, o fato de que cabeças vivem separadas do corpo por alguns segundos antes de se apagarem de vez.

     Se a história ainda não está muito estranha para você, aguarde que agora vem o pior. Sabendo desse pequeno intervalo de tempo que o cérebro sobrevive após a decapitação, dali em diante todos os carrascos começaram a segurar a cabeça da vítima pelos cabelos após o ato, de modo que ela pudesse ter a agradável sensação de ver uma multidão aplaudindo a sua morte como última imagem.

     Simples assim. "Que morram todos eles, mas sabendo que há uma multidão de pessoas comemorando tal fato".

     Para quem quiser dar uma lida no trecho escrito pelo Dr. Beaurieux sobre a morte de Languille, segue abaixo a transcrição do mesmo:

Here, then, is what I was able to note immediately after the decapitation: the eyelids and lips of the guillotined man worked in irregularly rhythmic contractions for about five or six seconds. This phenomenon has been remarked by all those finding themselves in the same conditions as myself for observing what happens after the severing of the neck...

I waited for several seconds. The spasmodic movements ceased. [...] It was then that I called in a strong, sharp voice: 'Languille!' I saw the eyelids slowly lift up, without any spasmodic contractions – I insist advisedly on this peculiarity – but with an even movement, quite distinct and normal, such as happens in everyday life, with people awakened or torn from their thoughts.

Next Languille's eyes very definitely fixed themselves on mine and the pupils focused themselves. I was not, then, dealing with the sort of vague dull look without any expression, that can be observed any day in dying people to whom one speaks: I was dealing with undeniably living eyes which were looking at me. After several seconds, the eyelids closed again[...].

It was at that point that I called out again and, once more, without any spasm, slowly, the eyelids lifted and undeniably living eyes fixed themselves on mine with perhaps even more penetration than the first time. Then there was a further closing of the eyelids, but now less complete. I attempted the effect of a third call; there was no further movement – and the eyes took on the glazed look which they have in the dead.

Impressões gerais sobre a França

     Permita-me então fazer algumas observações sobre esse belíssimo país, que após três meses de convivência com franceses no trabalho e 4 cidades visitadas, julgo ser capaz de fazer.

     Não me restam dúvidas de que a França é mesmo puro glamour... Apesar de não ter visitado muitos países ainda, é difícil imaginar que algum possa ser mais charmoso. Filmes franceses em geral mostram bem esse aspecto, e a própria língua deixa transparecer bastante esse sentimento quem vive no "país do amor".

     Junto com isso, entretanto, vem um sentimento de superioridade extremamente forte, o qual não senti nem de perto nos Estados Unidos, por exemplo (talvez porque enquanto os americanos acreditam que sua superioridade seja senso comum no mundo, os franceses precisam constantemente provocar os outros países para chamar atenção). Eles realmente acreditam ser o centro do mundo, e constantemente se recusam a aceitar conseqüências óbvias do mundo globalizado.

     Um exemplo é uma organização que eu vi em Paris, que tem como objetivo manter a identidade cultural do país no idioma. É interessante que exista um órgão como esse, mas às vezes eles chegam ao absurdo de proibir que palavras como iPod, por exemplo, sejam pronunciadas do modo inglês (ai-póde). A norma francesa diz que a pronúncia correta nesse caso é i-pô, e ainda houve uma enorme discussão para determinar qual seria o sexo do i-pô (finalmente estipulado como masculino).

     Muitos franceses são também incrivelmente convencidos, resultado direto desse sentimento de superioridade. E eles sempre olham a história deles com muito orgulho, como se eles sempre tivessem sido os heróis lutando contra bandidos. Por exemplo, numa conversa com meus colegas franceses de trabalho sobre a colonização do continente africano, a impressão que eles têm é de que a França realmente foi lá para salvá-los, e que os malditos africanos, mal-agradecidos, ainda imigraram em massa para a França, roubando dos franceses o que é deles de direito... Interessante o ponto de vista, né?

     Bom, pontos prós, pontos contra, o importante é notar que esse conjunto de itens acaba por definir a identidade cultural do país, que, apesar de se acharem o centro do universo, é notavelmente muito mais forte do que a espanhola e portuguesa, por exemplo.

terça-feira, 4 de março de 2008

Sobre o meu travel-style...

     Essas duas últimas viagens, Paris e Lyon-Marseille-Nice, me fizeram perceber uma coisa legal sobre meu estilo de viajar. Enquanto na primeira viagem eu voltei para a Suíça depois de quatro dias em Paris, na segunda eu emendei três cidades de uma vez (ou 3 cidades e mais um país), uma atrás da outra.

     Apesar de que o tempo que eu passei em cada cidade tenha sido muito pequeno nessa segunda viagem, acredito que o pior fator foi o fato de eu não ter voltado para casa após cada uma. O tempo pós-viagem é muito importante, é durante esse tempo que você digere tudo o que viu, pensa sobre o que aconteceu, e fica sonhando sobre como será da próxima vez. E foi isso que aconteceu comigo após voltar de Paris.

     Mas nessa viagem intensiva pelo sul da França, quando cheguei em Nice já estava tendo dificuldades para lembrar exatamente como era o lugar onde fiquei em Lyon, o que eu tinha feito lá, etc etc etc. Já estava misturando as imagens de um lugar, com as memórias de outro, com as pessoas de outro. Uma verdadeira salada, que não me agradou muito.

     Apesar de ambas as viagens terem sido fantásticas (recomendo!), acho que devo aproveitar mais cada cidade, individualmente, passando mais tempo e sempre voltando para casa em seguida... E usar os dias seguintes à viagem para escrever, ver fotos, lembrar das histórias e, de uma forma geral, digerir toda a experiência.

domingo, 2 de março de 2008

França -> Suíça

     Caramba!

     Cheguei no aeroporto em Basel e fui direto para a estação, para pegar o trem para Bern. Entrando no trem, fiquei até assustado: um bando de gente calada, com cara fechada, braços cruzados, e olhando para você com o rabo do olho quando você passa por eles, como que dizendo: "nem pense em sentar aqui, eu ocupo quatro lugares, não tá vendo?". Parece um bando de doentes!

     Me faz pensar se hoje é uma excessão - por ser domingo a noite - ou se foi sempre assim, todo mundo frio, e eu não percebia. Seja qual for a resposta, sinto que é legal viajar de um país para o outro e notar essas diferenças culturais, esses pequenos detalhes...

Nice

     "Nice is cute".

     Essa foi a descrição que eu mais ouvi das pessoas com quem conversei sobre Nice. E, sem dúvida, a descrição mais precisa também.

     Que dizer de uma cidade onde a torre do relógio, no centro da cidade antiga, é rosa? Isso mesmo, rosa! Se isso não diz nada para você, talvez diga o fato de que a grande maioria das construções na cidade antiga são coloridas. Arquitetura delicada, toda a cidade bem decorada (em função do carnaval), músicas agradáveis pelas ruas, tudo isso contribui para que Nice continue recebendo esse adjetivo tão preciso: é uma graça!

Nice - Cidade Antiga 1

Nice - Cidade Antiga 2

Nice - Praia

     Nice me lembrou Granada. Não porque é realmente parecida com Granada, mas simplesmente pela sensação que eu senti lá. Cidade aconchegante, litorânea, antiga e, principalmente, "cute"!
É aquele tipo de lugar que te faz ficar sorrindo o dia inteiro, sem saber o porquê.

     Para começar, o albergue em Nice se mostrou sensacional. O melhor albergue em que já fiquei na Europa, sem sombra de dúvidas. Ville St. Exupéry faz parte do Europe Famous Hostels (assim como também faz o Kabul, onde eu fiquei em Barcelona), que estou percebendo ser um ótimo atestado de qualidade para albergues. O pessoal te busca (e leva de volta) no ponto de ônibus com uma van sempre que você está carregando bagagem, tem internet (e wi-fi) grátis, café da manhã incrível grátis, um bar muito bom, com latinha de cerveja 500ml a um euro, e, o melhor de tudo, um ambiente super propício a conhecer pessoas. Você realmente precisa se esforçar se não quiser conhecer ninguém!

     Como disse nos post anterior, a mudança radical do clima também ajudou bastante, e Nice, com um clima mediterrâneo, chegou a mostrar 20 graus celsius no termômetro na cidade: sem dúvida, o melhor tempo que já tive desde que viajei para a Europa! Pude ficar o tempo inteiro sem minha jaqueta, sempre com a sensação feliz de que o inverno está finalmente acabando!

     Cheguei na cidade sábado pela manhã, vindo de Marseille, e, após o check-in e o almoço, já fui direto para o Promenade de Anglais, uma avenida na beira da praia onde o pessoal fica fazendo esportes como caminhada ou cooper, ou andando de patins/bicicleta/skate. Gente de toda idade, um clima bem agradável.

     O Carnaval foi a próxima atração do dia, e um tanto quanto surpreendente. Bem diferente dos carnavais da Suíça (e, claro, do Brasil também), o famoso Carnaval de Nice foi, basicamente, uma "Flower Parade". Vários carros megamente decorados ficam passeando pela principal avenida da cidade, sempre com algumas pessoas fantasiadas dentro que ficam atirando, uma a uma, as toneladas de flores de lá de dentro. Bem bonito. Eles fecham as ruas e colocam umas barreiras de modo que só pode assistir quem paga os 25 euros pelo assento (a não ser, é claro, que você tenha a brilhante idéia de subir na cabine telefônica e assistir tudo de camarote, lá de cima, hehe), e, acredite, não havia nenhum lugar vago, a arquibancada estava lotada!

     Logo que terminou o Carnaval, fiz uma caminhadinha de leve e subi no morro mais alto da cidade, onde pude ficar apreciando a vista belíssima até o pôr-do-sol. Logo que cai a noite volto para o albergue, onde acabo por conhecer um grupo de canadenses super legais, e, após algumas cervejas (a um euro), fomos visitar um bar na cidade. Show de bola!

Vista panorâmica de Nice

     Último dia de viagem, acordei no domingo pensando em ficar relaxando na praia o tempo todo, até a hora de ir embora. Os planos mudaram totalmente já no café da manhã, quando resolvi me juntar ao pessoal numa day-trip para Mônaco. Ótima escolha!

     Atrás apenas do Vaticano, Mônaco é o segundo menor país do mundo, daqueles que você atravessa a pé. É tão pequeno que, no ônibus que a gente pegou de Nice para Mônaco, sem querer perdemos o ponto (sim, são só dois pontos no país inteiro) e acabamos voltando pra França, na outra borda do país. Simples assim, ficamos conversando e, em poucos minutos, havíamos atravessado todo o país!

     "Droga, agora vamos ter que cruzar a fronteira a pé"! Pensamos em pedir carona, mas só passava por nós carros bizarros, tipo Porches, Ferraris, BMWs, etc. Decidimos que pediríamos carona para o primeiro carro que valesse menos de 100 mil euros, mas esperamos tanto tempo que o ônibus na direção de Mônaco passou e então pegamos. E dessa vez prestando basatnte atenção para não deixar o país passar despercebido denovo!

     Mônaco é definitivamente um país de gente rica. Milionária. Eles se sentem bem, todos aglomerados lá, juntos com seus Iates imensos e suas Ferraris, já que o principado é um paraíso em termos de impostos. E eu me senti muito bem também em saber que eles escolheram um lugar para ficar juntos, bem longe de mim... Porque, sinceramente, nunca vi tanta madame junta, dessas peruas mesmo, sabe? Nunca vi tanta gente metida a besta junta!

Litoral de Mônaco

Autódromo de Mônaco

Palácio de Mônaco

      O passeio se resumiu em um almoço na praia, uma caminhada pelas ruas onde montam o autódromo, em Maio, e uma visita ao Palácio. Palácio bem legal, por sinal, mas como fui a Versailles há uma semana atrás, achei que não seria suficientemente impressionante (aliás, tive certeza). Engraçado foi o guardinha, que fica em frente ao palácio marchando o dia inteiro, sozinho, de um lado para o outro. Não serve para nada, na verdade, a não ser para servir de tema para as fotos dos chineses.

     Volto agora para a Suíça, abandonando esses quase-vinte-graus e trocando por uns meros-cinco-graus. Belíssima troca, né? Bom, fazer o que... Amanhã é dia de trabalhar e, sem trabalho, sem mais viagens...

     Melhor trabalhar então mesmo...

Marseille

     Marseille é agradável. Não muito mais do que isso, só agradável mesmo. O que, obviamente, não quer dizer que a cidade seja ruim, como tantas vezes fiquei com a impressão quando conversava com outros viajantes.

     Segunda cidade mais populosa da França, e terceira maior área metropolitana, diferentemente de Lyon, Marseille passa a impressão de uma cidade grande. Muito trãnsito, engarrafamentos, muita gente nas ruas, barulheira... Me lembrou São Paulo algumas vezes, o que eu achei interessante, já que nem Madrid, Barcelona, Bruxelas ou Paris me lembraram, apesar de serem ainda maiores que Marseille.

     É também a cidade mais antiga da França, tendo sido fundada há 26 séculos atrás, pelos Gregos (antes ainda do florecimento romano). Apesar disso, não sobrou muito de sua cidade antiga: a impressão que tive é que não houve esforço em preservá-la, e hoje em dia há muito movimento e mesmo alguns prédios onde um dia a cidade começou. Por falar nisso, a cidade começou a partir de um porto. Olhando no mapa se percebe facilmente a razão de Marseille ser um porto, há exatamente uma entrada do mar Mediterrâneo em suas terras, e o porto é hoje em dia o que de mais histórico pode-se encontrar na cidade.

     A minha estadia começou de maneira interessante. Saí de Lyon embaixo de chuva, o céu estava cinza, e a previsão apontava chuva para o resto do final de semana. Estava triste com isso, já que minha viagem a partir dali seria pelo litoral, e praia com chuva não combina. A primeira hora da viagem foi embaixo de chuva forte, mas, para a minha surpresa e felicidade, o clima mudou repentinamente para um solão, e o céu se tornou azulzinho de uma hora pra outra! Só isso já foi suficiente para eu chegar em Marseille com um humor pra lá de bom!

     Cheguei, almoçei, fiz meu check-in no albergue, e saí pra conhecer a cidade. Estava morto de cansado, tanto por ter dormido pouco como por ter "turistado" freneticamente nos últmos dias, então aproveitei a fama "mediana" de Marseille pra fazer um turismo bem light... Uma visita ao porto, um café. Uma visita à Basílica de Notre Dame de La Garde, com uma ótima vista da cidade, e só. Voltei pro albergue e fiquei no barzinho até tarde (cedo para os padrões baladísticos), e fui dormir. Deixei a praia para curtir em Nice.

Porto de Marseille Basílica de Notre Dame de la Garde

Vista panorâmica da cidade

     A próxima parada é Nice, que tem uma fama entre os viajantes de ser inesquecível e apaixonante. Dois dias serão suficientes para que eu dê meu veredito ao final dessa viagem pelo sul da França.

     Adieu!