Muito bom ver nos comentários que o post foi realmente interessante. Como eu disse, o Attentional Blink foi descoberto apenas de 1992, o que torna sua pesquisa muito recente. Desde então, muita coisa foi descoberta sobre o funcionamento e os motivos para a existência dessa “piscada”, os quais eu pretendo explicar aqui.
No entanto, antes de mais nada, cabe uma observação interessante. Nenhum de vocês, leitores do blog, percebeu uma característica interessante no gráfico exposto com os resultados (ou talvez tenham percebido e não quiseram comentar nada). Essa característica é o Lag-1 Sparing, ou “poupada” da atenção para os casos de Lag-1. Vejam o gráfico novamente:
O gráfico mostra que, para as situações em que a segunda letra é exibida LOGO APÓS a primeira letra, sem números entre elas, ambas são detectadas com surpreendente sucesso! Hehehe, algo totalmente inesperado, tão inesperado que os inúmeros gráficos mostrando resultados de Attentional Blink desde 1992 sempre apresentavam este pico para Lag-1, mas, assim como para vocês, leitores, esse resultado passou despercebido (ou, mais provavelmente, ignorado) até mesmo para a comunidade científica! Foi somente no ano 2000 que esse efeito foi estudado com maior cautela.
O Lag-1 sparing - “poupada” da atenção para casos de Lag-1 (segunda letra logo após a primeira) –, juntamente com a “piscada” descrita anteriormente comprovam o seguinte: numa tarefa de detecção de duas letras numa seqüência de números, a detecção da segunda é normal caso ela venha logo após a primeira, cai abruptamente caso ela venha dentro de um período de 200ms a 500ms após a primeira, e retorna a níveis normais caso venha após 700ms.
Esse fato curioso, ao ser descoberto e publicado em 2000, contribuiu mais ainda para que o assunto “Attentional Blink” se tornasse mais “pop” na comunidade científica do que já era. Todos tentavam entender o que era isso que acontecia no cérebro que proporcionava resultados tão inesperados! Muitos vieram com teorias sobre o funcionamento da atenção, mas uma delas é mais amplamente aceita atualmente.
Ela diz que, basicamente, o que acontece é que o cérebro divide essa tarefa de reportar as letras observadas em tarefas intermediárias: primeiro ele “seleciona” o que deve ser observado (através da atenção), em seguida ele armazena o item observado na memória de trabalho (sendo que o tempo de armazenamento depende da complexidade do item), para, só em seguida, ser possível recuperar o tem na memória de trabalho e reportá-lo como resposta. Esse processamento serial faz com que o cérebro “descarte” estímulos que aconteçam durante outra atividade que não a da atenção. Por exemplo, se a segunda letra aparecer enquanto a primeira ainda está sendo armazenada na memória, o cérebro a descarta. Caso a segunda letra apareça depois de concluído o armazenamento da primeira, ela é notada e pode ser também armazenada na memória para ser em seguida reportada.
Essa teoria explica ainda o acontecimento de Lag-1 sparing, que seria conseqüência de uma identificação simultânea das letras, e armazenamento também simultâneo das mesmas. Ou seja, o cérebro não precisa esperar terminar a identificação e armazenamento da primeira letra, ele simplesmente o faz com ambas as letras ao mesmo tempo! No entanto, se a primeira letra começa a ser armazenada na memória, então a segunda deve esperar a conclusão desse armazenamento. Simples, né?
Ótimo, tudo estaria muito bem explicado, se não fosse a última constatação experimental sobre o Attentional Blink e o efeito de Lag-1 sparing – e, na minha opinião, a mais interessante! O que é esperado acontecer se o cérebro armazena duas letras AO MESMO TEMPO na memória? As letras são armazenadas desordenadamente! A que veio primeiro pode ser reportada como sendo a segunda, e vice-versa. Esse pressentimento de que o cérebro se atrapalha todo quando armazena duas coisas ao mesmo tempo na memória foi então observado experimentalmente, reforçando ainda mais a teoria descrita acima.
Ei, mas por que o cérebro “pisca” então? Que história é essa? O parágrafo acima sugere uma ótima resposta. Apesar de que muitos de vocês possam ter pensado que a “piscada” da atenção é algo indesejado, e só atrapalha a nossa vida, ela nada mais é do que um truque do cérebro para organizar as informações ordenadamente. Ou seja, numa situação em que as duas letras são apresentadas, o cérebro primeiro identifica a primeira e começa a armazená-la na memória. Durante esse período ele “desliga” a atenção do resto do mundo, como que pedindo um tempo para colocar “ordem na casa”, e só em seguida ele recebe mais informação a ser processada e armazenada. É tudo uma questão de ordem, e quem sabe mesmo o que está fazendo é o cérebro.
Pode confiar! Mais uma vez, o cérebro demonstra ser mais complexo e completo (e interessante) do que nunca! E, mais uma vez, eu me empolgo e escrevo um post ultra-gigante, que so com muita paciência (e atenção) mesmo para ler.
2 comentários:
eu tive a paciência de ler!
o meu cérebro, coitado, tá em ritmo de carnaval; e estou com dificuldades até para fazer um comentário que agregue :)
Atenção sim, mas paciência...fala sério....isso é para lá de boa leitura!
Tou admirado Cazé! Tá me dando vontade de ir para o MIT...que irado. Entendo agora por que você optou por isso...
Mas sobre o post em si...falando de tempo...o que define simultaneidade ou não? Existe algo falando se é, por exemplo, 100 ms o tempo limite em que o cérebro ainda consegue identificar ao mesmo tempo duas coisas...?
Existe algum link maluco desse tópico com mensagens subliminares?
Abraços!!
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