sábado, 16 de agosto de 2008

Uma jóia à beira do mar Báltico

     Meio perdida, tanto geograficamente quanto na mente das pessoas, a Estônia foi, sem sombra de dúvidas, a surpresa mais agradável até o presente momento da viagem. Como é a Estonia, quantos habitantes tem, onde fica... Nada disso eu saberia responder se me perguntassem um ano atrás. Porém, o fato de o país ser todo novidade só fez com que minha experiência fosse ainda mais agradável e surpreendente.

     Cheguei lá meio perdido. Com excessão de alguns amigos que havia feito em Helsinki e que eu encontraria novamente ali, não conhecia ninguém, nem tinha um mapa decente para me ajudar a me locomover. Também não sabia como chegar ao albergue que tinha reservado. Ou seja, num país onde as coisas já não são tão fáceis como na Europa Ocidental, eu poderia estar em apuros. Já nem todo mundo falava inglês, e a língua - estoniano - é ainda mais estranha e incompreensível que as línguas do Leste Europeu.

     Com a ajuda de alguns turistas, fui achando minhas direções e, com um pouco de trabalho, cheguei ao albergue. Fui andando mesmo, já que o albergue ficava bem na cidade antiga, que, por sua vez, se localizava estrategicamente próxima ao porto. Ótimo, menos trabalho, menos chance de errar.

     O albergue era ótimo. Um clima bem agradável, os funcionários bem amigáveis e um ambiente super propício para conhecer pessoas. Deixei minhas malas por lá e já fui sair pra conhecer a cidade antiga.

     Logo que saí, já dei de cara com uma lojinha que furava piercings. Como já havia tirado meu piercing da sobrancelha desde o início do trabaho na UPS, achei que seria legal se eu furasse denovo para usar durante toda a viagem. Colocar piercings é geralmente extremamente caro, principalmente na Europa. Mas como a Estonia era, até o momento, o país mais barato que havia visitado, resolvi que não ia esperar mais mesmo. Então eu furei.

     A cidade antiga de Tallinn é algo indescritível. De todas as cidades que já havia visitado, nenhuma tem uma cidade antiga tão bonita, completa, e bem preservada. Andar por aquelas ruazinhas é realmente como se a gente fizesse uma viagem no tempo para a idade média. Na praça central, vários dos restaurantes e museus tem pessoas que ficam à porta convidando as pessoas a entrarem. Todas essas pessoas se vestem à carater, como roupas típicas da idade média, e isso contribui demais para dar o clima à cidade também.

     Uma coisa que eu adorei também é o fato de que não há tantos turistas por lá como há no Leste Europeu. Dizem que Praga é linda, e que parece um conto de fadas. Em parte, é verdade. Mas a quantidade de turistas que se encontra por lá faz aquilo tudo perder um pouco o charme. Em Tallinn não, não se vê aquele tanto de inglês, americano (e brasileiro) andando pelas ruas. Até tem, mas é bem menos concentrado. E aí, sobra mais espaço pros locais mesmo.

     Mas, como já se pode ler em todo e qualquer guia de viagem, Tallinn é uma cidade que logo logo vai cair na boca do povo. Cada vez mais turistas visitam a recém-descoberta cidade, e companhias de cheap-flights já começaram a voar direto pra lá, levando vários e vários ingleses a 15 pounds o trecho. Ou seja, melhor aproveitar logo, né?

     E tem ainda outro ponto em que a Estonia deixa qualquer outro país do mundo no chinelo: a balada. O que é aquilo!?!? Não existe balada igual a de lá, eu realmente pude comprovar que todos os boatos que vinha ouvindo eram verdadeiros. E, como programei minhas datas cuidadosamente, aproveitei quinta, sexta, sábado e domingo à noite em Tallinn. E que dias (noites) perfeitos!

     E aquele tempo passou voando. Fiz vários e ótimos amigos estonianos, que vão ficar na memória. Pessoas super amigáveis, simpáticas, abertas, felizes e interessantes. E, o melhor, pessoas que curtiam a vida, e aproveitavam cada momento! E ainda dizem que o Brasil é a terra da festa e de gente bonita...

Impressões sobre a Escandinávia

Helsinki - Finlândia

O chato do albergue...

     Dormir em beliche, dividir o quarto com mais nove pessoas, acordar com o ronco do vizinho de cama, tomar banho com agua meio quente meio fria... Nada disso me incomoda quando durmo em albergue, e tudo muito pouco perto dos beneficios que se tem. Mas, se tem uma coisa que eu nao tolero mesmo e o tal do chato do albergue.

     O chato do albergue difere do chato convencional em varios aspectos. Ele e aquele que quer puxar papo com todo mundo, mas na conversa, quer ser o unico a falar. Ele e aquele que faz brincadeirinhas sem graca, que todo mundo ri so para nao desconcertar o coitado. Ele e aquele que quer mostrar as fotos de sua viagem pra todo mundo, ainda que ninguem tenha seuqer pensado em pedir. Ele e aquele que diz que ja visitou o mundo inteiro, e solta frases do tipo: "you know, I can say that the world is quite big". Ele e aquele que diz que fala 10 linguas, mas so com o ingles consegue se comunicar. Ele e aquele que pensa que e o cara mais legal do mundo, mas nao e verdade. A verdade e que ele e um Chato. E um Chato da pior especie.

     Durante minhas estadias em albergues, tive o desprazer de encontrar alguns Chatos de Albergue. Mas, no momento em que vos escrevo, em Helsinki, digo que estou sofrendo com a presenca de uma chata de grau mais elevado. Estou aqui, sentado na mesa do cafe da manha, sofrendo com a voz dela, que por sinal, esta incomodando um novo hospede apos perceber que eu nao queria papo com ela mesmo.

     Ouvindo a conversa, nao ouco a voz do coitado nem por um segundo. A Chata nao para de falar: "tal pais e assim, meu pais e o melhor, a comida e ruim, o outro albergue que fiquei e o melhor, esse pais e chato, o ultimo que visitei e melhor, eu falo frances, mas meu frances esta piorando porque nao pratico, e o meu alemao as vezes melhora e as vezes piora, dependendo do meu humor... As outras linguas que falo sao so por diversao. Eu sou metade sueca, metade chinesa, mas mesmo assim nasci na australia, entao eu tenho um pouco do mundo inteiro. E, voce sabe, o mundo e muito grande, por isso eu resolvi viajar. E claro, a gente tem que aproveitar cada minuto de nossas vidas como se fosse o ultimo. Bla bla bla bla bla bla bla bla.... Aaaaaahhhhhh!!!!

     Se eu ja sofro so de ouvir a conversa, imagine o coitado dividindo a mesa com ela, que ainda tem que fingir que esta prestando atencao. Alias, acabo de perceber que ele conseguiu se escapar, levantou da mesa e disse que precisa arrumar a mala. Esperto. Tomara que nao sobre pra mim agora.

     Nao e de se surpreender que cada vez mais pessoas desviam o olhar quando ela vem em sua direcao, que cortam o assunto quando ela solta uma frase, ou nao riem mais de suas piadinhas sem graca. E que eu sei que nao sou o unico, eles tambem conhecem a especie. E, assim como eu, nao toleram o maldito do Chato do Albergue.

Cruzeiro na Escandinávia!

Estocolmo - Suécia

Pit-stop...

Budapest

Bratislava

Vienna

Fome de carne!

     Ja estava ha muito tempo esperando chegar a algum lugar com precos de comida mais acessiveis, e Cesky Krumlov, no interior da Republica Tcheca, se mostrou perfeitamente adequada.

     Para que?

     Ora, para jantar um bom steak bovino, suculento, sangrando, boiando naquele caldinho... Putz! Ja tava passando da hora! 6 meses na Europa e nada de bife ate agora!

     No final da tarde, entao, sai a caminhar pela cidade para encontrar qual seria o lugar que me serviria o steak com o melhor custo-beneficio. E nao e que eu acabei encontrando um restaurante que servia steak "brazileiro" com um preco razoavel? 200 gramas ao equivalente a 6.7 euros! To dentro!!!

     Chegando la entao, pedi o cardapio e comecei a preparar o apetite. O cheirinho do lugar ja tava matando! Esperei a garconete chegar e mandei logo: "Me ve um steak brasileiro, 200g!".

     Para a minha infelicidade, veio a resposta: "Qual o side dish?". Caramba, a casa caiu. Juniorizei bonito, todo mundo sabe que na Europa, se voce pede carne, vem carne. Nada mais. E, por isso, nada de 6.7 euros. Esse seria o preço da carne, mais nada. Com acompanhamento sairia muito mais!

     "Side dish?" - perguntei, com cara de ponto de interrogacao.

     Ela mudou a pagina do cardapio entao para a pagina dos acompanhamentos, como que ensinando uma crianca a ler. Dei aquela olhada rapida, pa pa pa, e mandei logo: "arroz!"

     Obvio, ne! Matar a saudade do Brasil com um bife suculento e arroz acompanhando!

     Mas nao e que a garconete comecou a rir de mim?

     "Arroz"?????

     "Sim, arroz! Minha filha, eu sou brasileiro, eu sei o que eu estou falando. No Brasil, carne vem sempre com arroz!" - respondi.

     "Ta bem, voce e quem sabe" - ela respondeu, ainda rindo.

     E ficou desse jeito, olhando pra mim sempre e rindo da minha cara, so porque eu pedi um "bife com arroz"! Ve se pode?

     Passados entao alguns minutos, chega entao com a garconete (ainda com um sorriso no rosto) o meu bife com arroz. E, como alegria de pobre dura pouco mesmo, o steak tava hiper-passado, mal-tempeirado (uma pimentinha do reino fajuta), e, o pior, o arroz sem tempeiro nenhum! Tipo aqueles de comida japonesa mesmo! Ah, vai te catar, ne?

     Bom, taquei sal e mandei bala. Mas e foda, ne? E embora a comida viesse mal tempeirada, o preco se mostrou mais salgado do que aparentava... E nada de qualidade! Po, ta na hora desses tchecos aprenderem com os brasileiros como e que se come um churrasco de primeira!

Praga

(so um ps. Todos esses ultimos posts estao sendo escritos da escandinavia, ja que eu estava muito atrasado. Esse, por exemplo, eu estou escrevendo do navio de Helsinki para Tallinn)

     E entao comecou a jornada pelo leste europeu. As expectativas eram enormes, e o pique, mesmo apos o Queen's Day na Holanda, ainda era suficiente para muita diversao. Os proximos 11 dias seriam fantasticos, tinha certeza.

     Cheguei em Praga sozinho, na quinta-feira de manha. O Bruno, amigo de infancia em Divinopolis, com quem toquei algumas vezes junto na banda Billy Cleavers, estava fazendo um intercambio pela UFMG na Universidade do Porto, e combinamos de nos encontrar em Praga no domingo. Ate la, meus planos eram aproveitar dois dias e duas noites em Praga, viajar a Cesky Krumlov no sabado, pernoitar la, e encontrar o Bruno na manha de domingo em Praga, com quem viajaria junto ate o final, em Budapeste. Dito e feito.

     A comecar pelo albergue, fiquei incrivelmente surpreso. Apesar de muito barato, era tambem confortavel, limpo, e bem divertido. E pude perceber com o tempo que essas seriam caracteristicas comuns a todos os albergues do leste europeu. Fiquei hospedado fora do centro, longe da turistada e perto da verdadeira Praga, onde podia encontrar comida bem tipica e supermercados incrivelmente baratos, bem perto de mim.

     E Praga foi um sonho.

Amsterdam e o Queen's Day

     Ja havia visitado Amsterdam cerca de um mes atras. Mas Amsterdam foi uma cidade tao interessante, que mesmo com pouco tempo (e dinheiro) disponivel, nao me importei em dar um pulinho la novamente. Entao, seguindo a recomendacao do meu chefe (hehe, ele sabe das coisas), resolvi ajustar meu calendario para que estivesse la exatamente no dia da maior comemoracao (leia-se festa) do ano: o Queen's Day.

     O Queen's Day e a celebracao do aniversario da rainha - da anterior, nao da atual. E um dia onde ha um incrivel sentimento nacionalista, quando todos se vestem de laranja e vao as ruas comemorar. Alias, nao so as ruas. Os famosos canais de Amsterdam ficam transbordando barcos, e quase impossivel passar por certos trechos dos canais. E, junto com isso, inumeras barraquinhas sao montadas nas ruas, o transito regular de carros e impedido, e pronto, esta feita a festa: milhares e milhares - estimam-se mais de 300 mil - de pessoasse embragam e se divertem nas ruas e canais.

     Foi realmente inacreditavel, apos 6 meses na Europa, pude sentir novamente o gostinho de uma boa festa de rua, bem ao estilo do carnaval brasileiro. Nada comparavel as festas que ja tinha experienciado na Suica ou em qualquer outro pais. Os holandeses, sem duvida, ganharam meu respeito. =)

     O periodo oficial da festa dura da noite de 29 de Abril ate o final do dia 30. Mas e como no carnaval no Brasil, o clima de festa e comemoracao ja comeca uma semana antes, e dura ate o fim de semana seguinte. Eu cheguei la na tarde do dia 28, entao pude vivenciar o periodo mais animado.

     Embora a ideia inicial fosse encontrar o Thiago, do ITA, novamente em Amsterdam (ele tambem, como bom brasileiro, nao podia perder essa farra, ne?), por algum problema nos nossos celulares nao conseguimos nos comunicar para nos encontrar na multidao. Entao, por sorte, encontrei dois brasileiros vestidos com uma camiseta da Aiesec e logo estavamos andando juntos. Foram otimos parceiros para o dia todo! E ainda nao falei com o Thiago, mas aposto que ele soube se divertir bem tambem!

     Fui embora para Praga na manha do dia primeiro, sem ter dormido nem um so minuto, mas ja com uma ressaca absurda. Mas nada de descansar, esse e so o comeco. Praga, sem duvida nenhuma, ainda promete muito.

     E da-lhe "Live, laugh, love... Sleep later!"

Berlim

     Apos tantas viagens sozinho pela Europa, os proximos destinos seriam visitados quase sempre com alguma companhia. A comecar por Berlim, encontrei logo na noite de sexta o Bailarino, amigo do ITA que esta morando atualmente la para fazer um projeto na universidade TU Berlim.

     Berlim me surpreendeu de uma maneira muito positiva. Posso dizer que nao esperava muito quando coloquei meus pes la, mas apos poucas horas ja estava encantado com aquela cidade que tem algo de especial, algo que nao consigo descrever. Algo que e preciso estar la para sentir.

     Tanta historia que faz inveja em quase qualquer cidade da Europa. Mas uma historia diferente do que se encontra normalmente. Nao e como Roma, que respira historia antiga, e nao e como Franca ou Espanha, que se orgulham de uma historia principalmente a partir da idade media e ate o final do seculo 19. Nao. Berlim transpira uma historia recente, tao recente que e quase possivel sentir ainda o cheiro dos ataques nas duas guerras que praticamente levaram a cidade ao chao, e da dupla-face comunista/capitalista, que mostra sutilmente o que um dia foi dividido fisicamente por um muro.

     Foi ontem! Logo se sente que historia nao e sobre um outro mundo, que de tao distante se faz parecer irrelevante. E tambem sobre o que aconteceu com nossos avos, nossos pais, o que aconteceu ontem e o que estamos fazendo agora. E que sentimento de responsabilidade que esse pensamento nos da!

     O melhor de ter o Thiago comigo em Berlim foi que ele pode me levar aos lugares mais interessantes possiveis, que certamente eu nao encontraria por minha propria conta. Destaco aqui um predio na metade ex-comunista da cidade, que fora abandonado em certo momento e completamente depredado. Paredes pixadas de grafite, tetos sujos, lampadas piscando por mal-funcionamento, chao sujo. E, no quarto andar, uma exposicao de arte! Uma incrivel exposicao de arte contemporanea de um artista Tcheco, absurdamente talentoso. Algo para ficar na memoria!

     Berlim e isso, uma mistura do novo com velho, de capitalismo e comunismo, de destruido com restaurado. E, como disse, nao adianta ler ou ver fotos. So estando la mesmo para entender.